Programa Gás do Povo amplia importação de botijões e acirra disputa entre indústria e distribuidoras
Fabricantes nacionais pedem aumento da tarifa de importação; setor de distribuição alega necessidade de suprir demanda
RedaçãoA implantação do programa Gás do Povo, do Governo Federal, provocou um aumento expressivo na demanda por botijões de gás de cozinha e desencadeou uma disputa entre fabricantes nacionais e distribuidoras que recorrem ao mercado internacional, especialmente à China, para abastecer seus estoques.
Dados do setor mostram que as importações de botijões chineses cresceram de cerca de 29 mil unidades em todo o ano de 2025 para aproximadamente 515 mil unidades apenas no primeiro semestre de 2026. Considerando que o mercado brasileiro adquire, em média, dois milhões de botijões por ano para reposição, os recipientes importados já representam cerca de um quarto das compras realizadas pelo setor.
Fabricantes defendem proteção à indústria nacional
Diante do crescimento das importações, a fabricante Mangels, uma das principais produtoras de botijões do país, solicitou ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) a elevação da tarifa de importação dos recipientes de 12,6% para 25%.
A empresa argumenta que existe uma distorção na política tarifária brasileira. Segundo a fabricante, a matéria-prima utilizada na produção dos botijões, especialmente as chapas de aço, passou a ser tributada em 25%, enquanto o produto acabado continua sujeito a uma alíquota menor, tornando mais vantajosa a importação do que a fabricação no Brasil.
A companhia afirma ainda que possui capacidade instalada para produzir até oito milhões de botijões por ano, volume que considera suficiente para atender ao aumento da demanda gerado pelo programa social.
Distribuidoras apontam necessidade de importação
O Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Gás Liquefeito de Petróleo (Sindigás), por outro lado, sustenta que as importações ocorreram porque a indústria nacional não conseguiu atender, em tempo hábil, ao crescimento da demanda.
Segundo a entidade, as distribuidoras enfrentaram atrasos e redução na entrega de pedidos ainda no fim de 2025, o que levou empresas do setor a buscar fornecedores internacionais para evitar o desabastecimento.
O presidente do Sindigás, Sérgio Bandeira de Mello, afirma que a capacidade instalada das fábricas brasileiras não significa, necessariamente, capacidade de entrega imediata. De acordo com ele, ampliar a produção exige reorganização industrial e aumento da capacidade operacional, processo que demanda tempo.
Programa ampliou demanda por botijões
O programa Gás do Povo prevê a distribuição de vales para aquisição gratuita de botijões de 13 quilos por aproximadamente 15 milhões de famílias de baixa renda. Com a expectativa de crescimento do consumo, distribuidoras intensificaram a formação de estoques para atender à nova demanda.
Enquanto os fabricantes defendem medidas de proteção à indústria nacional, as distribuidoras afirmam que as importações tiveram caráter complementar e não representam uma estratégia para substituir a produção brasileira.
Governo analisa pedido
O Ministério do Desenvolvimento informou que o pedido para alteração da tarifa de importação está em análise técnica. Após essa etapa, o processo será encaminhado ao Comitê de Alterações Tarifárias e, posteriormente, ao Comitê Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior (Camex), responsável pela decisão sobre eventual mudança na alíquota.
O debate evidencia os desafios de conciliar o fortalecimento da indústria nacional, a capacidade de abastecimento do mercado e a execução de políticas públicas voltadas ao acesso da população ao gás de cozinha.