Estudo revela que maioria dos feminicídios no Piauí ocorre dentro de relacionamentos
Dados reforçam alerta para violência doméstica e importância da ação firme da Justiça
RedaçãoUm levantamento recente trouxe números que desmontam qualquer tentativa de romantizar relações marcadas por violência. No Piauí, mais de 70% dos casos de feminicídio são cometidos por parceiros ou ex parceiros das vítimas, segundo o relatório Elas Vivem a urgência da vida, divulgado pela Rede de Observatórios da Segurança.
O estudo mostra que, em 2025, o estado registrou 379 mulheres vítimas de diferentes formas de violência. O número representa um aumento de 17,6% em relação ao período anterior. Já as mortes de mulheres, que incluem homicídios e feminicídios, cresceram 4,8%.
Os dados deixam claro que o perigo muitas vezes não vem de um estranho na rua, mas de dentro da própria relação afetiva. Cerca de 32,3% das agressões foram cometidas por cônjuges, namorados ou ex parceiros.
Quando se observa apenas os casos de feminicídio, a proporção fica ainda mais evidente. Em 76,7% das ocorrências, o autor do crime era parceiro íntimo da vítima. Ou seja, justamente quem deveria representar proteção acaba figurando como principal agressor.
Segundo os pesquisadores, discussões motivadas por término de relacionamento, ciúmes e disputas pessoais aparecem entre as justificativas mais comuns apresentadas pelos agressores. Argumentos que, no mundo jurídico, têm o mesmo valor que qualquer outra tentativa de explicar o inexplicável.
A capital Teresina aparece com destaque nas estatísticas. A cidade concentrou 29,3% das vítimas de violência registradas no estado. Nos casos de feminicídio, o índice chega a 32,1% das mortes.
Para os pesquisadores, os dados revelam um problema estrutural ligado à violência de gênero. O relatório aponta que ainda persiste uma cultura de controle e posse sobre as mulheres, que transforma relações afetivas em ambientes de risco.
O estudo também chama atenção para a vulnerabilidade de meninas e adolescentes. Entre as 53 vítimas de violência sexual registradas no levantamento, 43,4% tinham até 17 anos.
Outro ponto preocupante é a ausência de dados completos sobre raça e cor das vítimas. Em 92,9% dos registros de feminicídio, essa informação não foi informada, o que dificulta análises mais detalhadas e a elaboração de políticas públicas eficazes.
Quanto aos meios utilizados nos crimes, o levantamento aponta que armas brancas aparecem em 28,9% dos casos, enquanto armas de fogo foram usadas em 18,4% das ocorrências.
As pesquisadoras responsáveis pelo estudo destacam que a rede de proteção às mulheres ainda enfrenta desafios para alcançar regiões periféricas e municípios mais distantes da capital. Além disso, apontam que a lentidão de alguns processos judiciais e a falta de estrutura em determinadas áreas dificultam o enfrentamento do problema.
Apesar do cenário preocupante, existem canais de denúncia e proteção disponíveis. Casos de violência contra a mulher podem ser denunciados pela Central de Atendimento à Mulher, pelo telefone 180, que funciona em todo o país, ou pelo 190 em situações de emergência.
Também é possível registrar denúncias de forma anônima pelo WhatsApp do protocolo Ei mermã não se cale, no número 0800 000 1673, além do registro em qualquer delegacia.
Em Teresina, as vítimas contam ainda com estruturas especializadas, como as Delegacias de Atendimento à Mulher, a Casa da Mulher Brasileira e a Central de Flagrantes de Gênero, que funcionam 24 horas para acolhimento e encaminhamento das denúncias.
No fim das contas, os números servem como lembrete de algo que a legislação brasileira já deixa bastante claro. Violência contra a mulher não é conflito doméstico, não é drama de casal e muito menos justificativa emocional. É crime, e como tal deve ser enfrentado com investigação, denúncia e aplicação rigorosa da Justiça.