Como a guerra no Oriente Médio pode afetar o preço da comida no mundo

Conflito ameaça fornecimento de fertilizantes essenciais para a produção global de alimentos
Redação

A guerra no Oriente Médio pode ter consequências que vão muito além da região. Um dos efeitos menos visíveis, mas potencialmente mais graves, é o impacto sobre a produção mundial de alimentos. Especialistas alertam que, se o conflito se prolongar, o preço da comida pode subir e países mais pobres podem enfrentar maior risco de fome.

Foto: ATP
Oriente Médio: Guerra naval entre Estados Unidos e Irã

Isso acontece porque a região do Golfo Pérsico, além de ser famosa por suas reservas de petróleo e gás natural, também é uma das principais fornecedoras de matérias-primas usadas para produzir fertilizantes agrícolas — produtos essenciais para manter a produtividade das lavouras no mundo.

Por que fertilizantes são tão importantes

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Os fertilizantes fornecem nutrientes fundamentais para o solo. Entre eles, o mais importante para muitas culturas é o nitrogênio. Fertilizantes nitrogenados, produzidos a partir do gás natural, ajudam a alimentar plantações responsáveis por cerca de metade de toda a produção mundial de alimentos.

Hoje, grande parte desses fertilizantes é fabricada em países do Golfo, como Irã, Arábia Saudita, Catar, Emirados Árabes Unidos e Bahrein. O problema é que esses produtos precisam atravessar um ponto estratégico do comércio global: o Estreito de Ormuz, uma passagem marítima estreita que liga o Golfo Pérsico ao Oceano Índico.

Com o agravamento do conflito e a interrupção do tráfego marítimo nessa região, transportar fertilizantes para agricultores de diferentes países se tornou muito mais difícil.

O que pode acontecer com a produção de alimentos

Se os fertilizantes ficarem mais caros ou escassos, muitos agricultores podem reduzir a quantidade usada nas lavouras. Isso costuma diminuir a produtividade das plantações.

Quando a produção agrícola cai, o resultado costuma ser sentido no bolso do consumidor: os preços dos alimentos sobem. Em países com menor renda, onde grande parte da população já gasta muito com alimentação, isso pode levar a situações de insegurança alimentar ou até fome.

Especialistas destacam que o mundo depende fortemente dos fertilizantes produzidos nessa região. Por isso, qualquer interrupção prolongada pode ter efeitos globais.

Um problema parecido já aconteceu

A situação lembra o que ocorreu após a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022. Na época, os dois países eram grandes exportadores de grãos e fertilizantes. O conflito reduziu o fornecimento desses produtos, elevando preços e afetando a produção agrícola em várias partes do mundo.

Agora, o temor é que o impacto no Oriente Médio seja ainda maior, porque vários países produtores de fertilizantes estão envolvidos na mesma rota comercial.

Esses países respondem por mais de um terço do comércio mundial de ureia um dos fertilizantes nitrogenados mais usados além de uma parcela significativa da produção de amônia e fertilizantes fosfatados.

Outro insumo importante em risco: o enxofre

Além dos fertilizantes prontos, outro insumo essencial pode ser afetado: o enxofre. Esse material, que é um subproduto do refino de petróleo e gás, é amplamente usado na produção de fertilizantes fosfatados.

Quase metade do enxofre comercializado no mundo também passa pelo Golfo Pérsico e depende do Estreito de Ormuz para chegar aos mercados internacionais. Com a interrupção das rotas marítimas, parte desse material ficou presa na região.

Se o fornecimento continuar limitado, países que dependem desse insumo para fabricar fertilizantes — como China, Indonésia e Marrocos também podem enfrentar dificuldades.

Impactos diferentes entre os países

Os efeitos da crise não serão iguais em todo o planeta. Países ricos podem absorver melhor os aumentos de preço. Já nações mais pobres da África e do sul da Ásia podem ter mais dificuldade para manter a produção agrícola.

Além disso, os fertilizantes geralmente são negociados em dólar. Em momentos de crise global, a moeda americana tende a se valorizar, o que torna esses produtos ainda mais caros para países cuja moeda é mais fraca.

Foto: Zhou Mu/Xinhua-29.out.25
Dai Shuying, 82, volta para casa com os vegetais que colheu nos campos da Vila Laomei, cidade de Tongcheng, leste da China

Possíveis caminhos para o futuro

A crise também reacende um debate antigo: a dependência global de poucos produtores de fertilizantes.

Alguns especialistas defendem que países invistam em sistemas agrícolas mais sustentáveis, que utilizem menos fertilizantes importados e aproveitem melhor nutrientes disponíveis localmente.

Exemplos desse tipo de estratégia podem ser vistos em países como Índia e Brasil, onde políticas agrícolas vêm incentivando a diversificação de culturas e o uso mais eficiente dos nutrientes do solo.

No entanto, essas mudanças levam tempo. Para a próxima safra, o mundo ainda depende fortemente do fornecimento global de fertilizantes o que torna a estabilidade das rotas comerciais um fator crucial para manter a produção de alimentos.

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