Crise em Cuba se agrava com pressão dos EUA e falhas internas, aponta pesquisador

Especialista vê pior momento da ilha e defende diálogo para aliviar sofrimento da população
Redação

O economista e pesquisador Carmelo Mesa-Lago, professor emérito da Universidade de Pittsburgh, avalia que Cuba enfrenta atualmente a pior crise econômica de sua história recente. Segundo ele, o cenário é resultado de uma combinação entre problemas estruturais internos e o endurecimento das medidas adotadas pelos Estados Unidos, especialmente durante o governo de Donald Trump.

Foto: Arquivo pessoal
O pesquisador cubano Carmelo Mesa-Lago, professor da Universidade de Pittsburgh (EUA)

Com mais de seis décadas dedicadas ao estudo da economia cubana, Mesa-Lago afirma que os indicadores vêm se deteriorando de forma contínua nos últimos anos. Dados oficiais apontam retração do Produto Interno Bruto (PIB) de 1,9% em 2023, 1,1% em 2024 e 5% em 2025, acumulando uma queda significativa desde 2019.

Pressão externa e crise energética

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Um dos principais fatores para o agravamento da crise, segundo o pesquisador, é a redução drástica no fornecimento de petróleo, historicamente garantido pela Venezuela. Com mudanças no cenário político regional e medidas mais duras dos EUA, Cuba passou a enfrentar escassez energética sem precedentes, afetando transporte, indústria, agricultura e o fornecimento de eletricidade.

Essa situação tem impacto direto no cotidiano da população, com apagões frequentes, dificuldades de armazenamento de alimentos e queda na produção de bens essenciais.

Além disso, o turismo — uma das principais fontes de receita da ilha — ainda sofre os efeitos da pandemia, agravados por restrições impostas por Washington.

Sistema interno também é apontado como causa

Embora reconheça que as sanções americanas hoje tenham peso maior do que no passado, Mesa-Lago ressalta que o modelo econômico cubano apresenta falhas estruturais históricas. Segundo ele, a ausência de reformas mais profundas, como as adotadas por países como China e Vietnã, contribuiu para o enfraquecimento da economia.

O especialista destaca que, ao longo dos anos, medidas de abertura econômica foram implementadas de forma limitada e com restrições que dificultaram resultados mais consistentes. O setor privado, por exemplo, ainda tem participação reduzida no PIB em comparação com outras economias socialistas reformadas.

Deterioração social e desafios futuros

Outro ponto de preocupação é a queda na qualidade dos serviços sociais, tradicionalmente considerados pilares do sistema cubano. Indicadores como saúde e nutrição vêm apresentando retrocessos, refletindo o impacto da crise prolongada.

Apesar do cenário crítico, Mesa-Lago defende a busca por soluções que priorizem a população. Ele é favorável ao diálogo internacional e a reformas econômicas que possam melhorar as condições de vida, mesmo que isso implique mudanças graduais no modelo vigente.

Para o pesquisador, o principal desafio é encontrar caminhos que reduzam a crise sem agravar ainda mais as dificuldades enfrentadas pelos cubanos.

Fonte: Entrevista do economista Carmelo Mesa-Lago publicada pela Folha de S.Paulo

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