Pó de rocha ganha espaço no campo e reduz dependência brasileira de fertilizantes importados
Tecnologia nacional já é usada em mais de 2 milhões de hectares e custa cerca de 10% dos adubos tradicionais
RedaçãoA busca por alternativas que reduzam a dependência brasileira de fertilizantes importados tem impulsionado o avanço de uma tecnologia desenvolvida a partir da própria geodiversidade nacional: o uso de pós de rocha, conhecidos tecnicamente como remineralizadores de solos.
A alternativa ganha relevância em um momento de instabilidade geopolítica global. Conflitos envolvendo Rússia e Ucrânia, além das tensões no Oriente Médio, continuam impactando o mercado internacional de fertilizantes, especialmente os nitrogenados, gerando preocupação entre agricultores e pecuaristas sobre custos e garantia de abastecimento para as próximas safras.
Segundo o pesquisador da Embrapa Cerrados, o geólogo Éder Souza Martins, os remineralizadores surgem como uma estratégia nacional capaz de fortalecer a segurança agrícola brasileira. O custo do produto pode representar apenas cerca de 10% do valor dos fertilizantes minerais convencionais, além de contribuir para a recuperação e melhoria da qualidade dos solos.
O Brasil ocupa atualmente posição de destaque na produção mundial de alimentos, mas ainda mantém elevada dependência externa na aquisição de fertilizantes. Há cerca de duas décadas, aproximadamente 90% dos insumos utilizados no país eram importados. Atualmente, esse percentual permanece elevado, em torno de 85%.
Para enfrentar essa vulnerabilidade, o Governo Federal criou o Plano Nacional de Fertilizantes, que tem entre seus objetivos reduzir significativamente a dependência de insumos importados e ampliar o uso de alternativas produzidas no território nacional.
O país também foi pioneiro ao regulamentar o uso agrícola dos pós de rocha. A Lei nº 12.890, de 2013, posteriormente regulamentada pelo Ministério da Agricultura em 2016, criou oficialmente a categoria de remineralizador de solos. Desde então, o setor registrou crescimento acelerado.
Hoje, mais de 100 produtos comerciais estão registrados junto aos órgãos competentes, e a tecnologia já é utilizada em mais de 2 milhões de hectares de áreas agrícolas brasileiras.
Como funciona o pó de rocha
Diferentemente dos fertilizantes convencionais de alta solubilidade, os remineralizadores não atuam apenas fornecendo nutrientes específicos às plantas. Eles promovem uma recuperação gradual e abrangente das propriedades químicas, físicas e biológicas do solo.
Os materiais mais utilizados são derivados de rochas silicáticas, como basalto, biotita-xisto e outras formações minerais abundantes no território brasileiro.
A ação ocorre em três frentes principais:
Fornecimento gradual de macro e micronutrientes essenciais para as plantas;
Melhoria da estrutura física do solo, favorecendo infiltração de água e desenvolvimento radicular;
Estímulo à atividade biológica e ao equilíbrio dos organismos presentes no ambiente agrícola.
O papel do silício nas pastagens
Um dos principais diferenciais dos remineralizadores é a presença de silício. O elemento fortalece tecidos vegetais, aumenta a resistência das plantas ao estresse hídrico, contribui para a tolerância a pragas e doenças e melhora o desempenho de culturas agrícolas e pastagens.
Nas áreas de pecuária, o uso do silício tem demonstrado potencial para aumentar a produtividade dos capins, tornando as pastagens mais vigorosas e resilientes, especialmente em regiões sujeitas a longos períodos de estiagem.
Tecnologia complementar
Especialistas ressaltam que os remineralizadores não substituem completamente os fertilizantes tradicionais em todas as situações. O uso da tecnologia costuma apresentar melhores resultados quando associado a práticas de manejo sustentável, como a integração com leguminosas fixadoras de nitrogênio, adubação orgânica e sistemas de recuperação de solos degradados.
Mesmo assim, o avanço da rochagem é visto como uma das alternativas mais promissoras para aumentar a autonomia agrícola brasileira, reduzir custos de produção e diminuir a exposição do setor agropecuário às oscilações do mercado internacional.
Com vastas reservas minerais e condições favoráveis para expansão da tecnologia, o Brasil pode transformar um recurso abundante do seu próprio território em uma ferramenta estratégica para garantir produtividade, sustentabilidade e segurança alimentar nas próximas décadas.