Produtora de “Dark Horse” buscou milhões via Rouanet e amplia desgaste da família Bolsonaro

Pedidos de captação contradizem discurso bolsonarista contra a Lei Rouanet e geram novas cobranças
Redação

A crise envolvendo o filme “Dark Horse”, produção inspirada na trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), ganhou mais um capítulo após vir à tona que a produtora ligada ao projeto buscou captar R$ 8,59 milhões por meio da Lei Rouanet, mecanismo frequentemente atacado pelo próprio bolsonarismo ao longo dos últimos anos.

Foto: Reprodução
O ator Jim Caviezel é quem interpreta o ex-presidente Jair Bolsonaro

A responsável pelos pedidos foi Karina Ferreira da Gama, sócia-administradora da Go Up Entertainment, produtora do longa-metragem, e presidente do Instituto Conhecer Brasil. Entre 2015 e 2019, a entidade apresentou projetos culturais para captar recursos via incentivo fiscal, incluindo eventos ligados à Marcha para Jesus, espetáculos teatrais e apresentações musicais.

Apesar dos pedidos milionários, apenas um projeto conseguiu efetivamente captar recursos: o espetáculo “Rute – o Ballet”, que obteve cerca de R$ 107 mil por meio da Lei Rouanet.

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A revelação aumenta o desgaste político em torno do filme “Dark Horse”, principalmente após declarações do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, que afirmou recentemente que a produção não utilizava dinheiro público nem qualquer mecanismo ligado à Rouanet.

“O que aconteceu foi um filho procurando patrocínio privado para um filme privado”, declarou Flávio após a divulgação das conversas com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, investigado na Operação Compliance Zero.

Agora, porém, surgem novos questionamentos sobre a coerência do discurso adotado pela família Bolsonaro nos últimos anos contra a Lei Rouanet, mecanismo que foi alvo constante de críticas públicas do ex-presidente Jair Bolsonaro, de seus filhos e de aliados políticos.

Além da tentativa de captação via incentivo cultural, o caso envolve o repasse de R$ 61 milhões feitos por Daniel Vorcaro para o projeto cinematográfico. Segundo investigações, o valor teria sido destinado ao fundo Havengate Development Fund, ligado ao entorno de Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que atualmente vive nos Estados Unidos.

A Polícia Federal apura se parte desses recursos teria sido usada para custear despesas pessoais, atividades políticas e a permanência do ex-deputado em território americano. Flávio e Eduardo Bolsonaro negam qualquer irregularidade.

O episódio também expõe novas contradições envolvendo a narrativa construída pela família Bolsonaro desde o início da crise. Inicialmente, aliados negaram proximidade com Vorcaro e minimizaram a relação com o projeto. Depois, áudios, mensagens e encontros vieram à tona, ampliando o desgaste político e alimentando dúvidas inclusive dentro do próprio campo bolsonarista.

Além da Go Up Entertainment, Karina Gama também aparece ligada a contratos públicos e verbas parlamentares. O Instituto Conhecer Brasil recebeu autorização para um contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo para fornecimento de internet em comunidades carentes, além de emendas parlamentares do deputado federal Mario Frias (PL-SP), que também atua como produtor e roteirista do filme.

Enquanto isso, o caso “Dark Horse” segue cercado por investigações da Polícia Federal, questionamentos sobre origem e destino dos recursos e suspeitas envolvendo o Banco Master, Daniel Vorcaro e figuras próximas ao núcleo político bolsonarista.

Nos bastidores, cresce a percepção de que o discurso contra a Rouanet e contra o financiamento cultural parece perder força quando interesses ligados ao próprio grupo político entram em cena — o que vem ampliando os questionamentos sobre credibilidade, coerência e transparência por parte da família Bolsonaro neste episódio.

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