Disciplina sem farda: escolas cívico-militares de Tarcísio estreiam no improviso
Após um ano de atraso, governo de SP começa programa sem uniforme e terceiriza o “padrão” às famíliasDepois de um ano além do cronograma e muita pompa no discurso, as escolas cívico-militares do governo Tarcísio de Freitas (Republicanos) começam a funcionar em São Paulo sem um detalhe básico: o uniforme. A estreia do modelo, prometido como vitrine de organização e rigor, acontece na rede estadual sem a entrega das roupas aos alunos.
Segundo a Secretaria de Educação, comandada por Renato Feder, a compra ainda está “em finalização”. O pregão para adquirir os uniformes —aberto em abril do ano passado— segue em andamento, provando que, na prática, a pressa ficou só no anúncio. O programa, um aceno claro à base bolsonarista, deveria ter começado no ano letivo de 2025, mas foi travado por decisões judiciais e agora sai do papel pela metade.
Nesta segunda-feira (2), cem escolas passam a adotar o modelo, atendendo cerca de 53 mil estudantes —algo em torno de 1,5% da rede estadual. Para compensar a ausência do uniforme oficial, algumas unidades recorreram ao “faça você mesmo”. Em Osasco, por exemplo, uma escola avisou às famílias que calça jeans está proibida: o traje aceito inclui calça preta de moletom, sarja, tactel ou helanca e camiseta cinza. A padronização, ao que tudo indica, ficou por conta do guarda-roupa doméstico.
O curioso é que a licitação prevê um investimento de R$ 57,6 milhões para a compra de 1,2 milhão de peças. Cada aluno deveria receber duas camisetas, duas calças, um casaco e duas bermudas, nas cores azul e branco. Mas, segundo a secretaria, quatro modelos de camisetas não atenderam às exigências técnicas e foram retirados do edital —o suficiente para travar todo o processo.
A exigência do uniforme, vale lembrar, faz parte do regimento das escolas cívico-militares. As regras também determinam cabelo preso para meninas, corte curto para meninos e proíbem bonés, piercings e roupas curtas. Rigor no papel, flexibilidade na execução.
Embora o programa tenha sido tratado como prioridade política pelo governador —inclusive com evento de sanção ao lado de aliados de Jair Bolsonaro—, a Educação parece não ter entrado no mesmo ritmo. O secretário Renato Feder, por exemplo, não participou da cerimônia.
Além disso, o modelo terá custo extra de R$ 17 milhões por ano, destinados ao pagamento de 208 policiais militares aposentados contratados para atuar nas escolas. Cada um receberá uma diária de R$ 301,70, o que pode chegar a cerca de R$ 6 mil mensais, somados à aposentadoria.
O detalhe final fecha o roteiro da ironia: o complemento pago a esses militares é 8% maior que o piso salarial dos professores da rede estadual, profissionais com ensino superior e responsáveis diretos pela sala de aula. Disciplina, afinal, custa caro —especialmente quando o uniforme ainda não chegou.
Fonte: Revista40graus, mídias, redes sociais e colaboradores
