Quando o impossível acontece: tragédia no zoológico expõe falhas e lições urgentes
Caso de jovem morto por leoa revela lacunas de cuidado, segurança e responsabilidade que a Justiça não pode ignorarUma tragédia tão improvável quanto anunciada
O ataque que tirou a vida de Gerson de Melo Machado, 19 anos, no zoológico de João Pessoa, poderia soar como algo saído de um roteiro absurdo — mas, infelizmente, foi real. E como toda tragédia que parece “imprevisível”, sempre vale perguntar: será mesmo que ninguém viu sinais antes?
De um lado, órgãos ambientais, administrativos e policiais agora correm para entender como um jovem com histórico de vulnerabilidade, transtornos mentais e repetidas tentativas de arriscar a própria vida conseguiu escalar uma parede de mais de seis metros, atravessar grades, descer por uma árvore e alcançar o recinto de uma leoa. De outro, a boa Justiça, como sempre, chega depois — mas ainda assim precisa chegar com firmeza.
O ataque: um conjunto de impossibilidades que, juntas, viraram realidade
Gerson fez um percurso que nenhum visitante deveria sequer imaginar. Subiu, passou por barreiras, ignorou alertas e, já pendurado na árvore, foi atacado pela leoa antes mesmo de tocar o solo. A perícia aponta que os ferimentos graves no pescoço foram fatais. A leoa não ingeriu partes da vítima — reforçando que o instinto do animal foi reação, não premeditação.
Quem era Gerson?
O histórico de Gerson é uma somatória de ausências que se arrastam há anos.
Desde os 10, sob acompanhamento intermitente do conselho tutelar; mãe com esquizofrenia e tutela perdida; irmãos adotados, ele não. Tratamento irregular, idas e vindas ao CAPS, fugas, desaparecimentos e tentativas anteriores que mostravam, com todas as letras, um pedido de ajuda que o Estado nunca conseguiu atender de forma contínua.
Para completar o retrato, Gerson tinha uma fixação declarada por leões — chegou a tentar entrar no trem de pouso de um avião porque dizia querer “ir para a África cuidar deles”. Uma metáfora trágica da fragilidade do cuidado oferecido.
E a leoa?
Leona, o animal que reagiu ao invasor, entrou em estresse, foi conduzida pelos tratadores e passa bem. Não será sacrificada — e que bom que, ao menos aqui, prevalece a lógica. O zoológico afirma que o episódio foi “absolutamente imprevisível”. Ironia das ironias: imprevisível para quem não conhecia a história do próprio visitante.
Zoológico fechado e investigações abertas
O Parque Zoobotânico foi fechado temporariamente. Semam, Ibama, Polícia Civil, Sudema, conselho veterinário e guarda municipal avaliam as circunstâncias. Todos agora querem respostas — aquelas que, se tivessem sido buscadas antes, talvez tivessem impedido o desfecho.
E agora?
O caso deixa uma reflexão desconfortável, porém necessária:
quando um jovem com tantos alertas consegue ultrapassar tantas barreiras, talvez o problema não esteja só na árvore, na grade ou no muro — mas na rede que deveria ter segurado ele muito antes de chegar lá.
A justiça precisa atuar, não para punir um animal que agiu por instinto, mas para entender onde falhou o sistema humano que deveria ter protegido o jovem, o zoológico e, sobretudo, a própria vida dele.
É a parte da história que não pode ser “absolutamente imprevisível”. É a parte que precisa mudar.
Fonte: Revista40graus, SSP-PB, mídias, Prefeitura de João Pessoa e colaboradores
