COP30: O Marco de Belém
Como a conferência entregou resultados concretos, apesar de críticas pontuaisA COP30 encerrou-se em Belém com a aprovação unânime do Pacote de Belém por 195 países — um feito diplomático raro e pedagógico, que reforça como a cooperação internacional continua sendo a ferramenta mais eficaz no enfrentamento da crise climática. Ao longo de 13 dias, mesmo diante de críticas localizadas e debates intensos, a conferência conseguiu avançar em temas decisivos como transição justa, adaptação, financiamento, gênero, tecnologia e participação social.
Um início, não um final
O presidente da COP30, André Corrêa do Lago, sintetizou o espírito do encontro: mais que um encerramento, Belém marca o início de uma década de transformação. A ideia de uma transição energética para um mundo sem combustíveis fósseis — ainda sem consenso global — ganhou adesão de mais de 80 países e se consolidou de vez no debate internacional.
A ministra Marina Silva destacou os avanços pedagógicos do encontro:
maior reconhecimento ao papel de povos indígenas, comunidades tradicionais e afrodescendentes;
fortalecimento da transição justa;
lançamento do inovador Fundo Florestas Tropicais Para Sempre;
e a apresentação de 122 novas NDCs com metas até 2035 — um marco para o multilateralismo.
Três vitórias estruturantes
O chanceler Mauro Vieira classificou os resultados em três dimensões de êxito:
- Reafirmação do multilateralismo climático, num momento em que ele vinha sendo questionado.
- Triplicação dos recursos para adaptação, vital para populações vulneráveis.
- Apoio ampliado à transição justa, garantindo que mudanças econômicas não deixem pessoas para trás.
Para o presidente Lula, a COP30 foi “um sucesso extraordinário”. Além do acordo político, Belém mostrou sua capacidade de acolher o mundo e projetou uma imagem renovada do Brasil e da região Norte.
Decisões centrais do Pacote de Belém
Financiamento e adaptação
O acordo prevê triplicar o financiamento para adaptação até 2035 e reforça a responsabilidade de países desenvolvidos em apoiar nações em desenvolvimento. Foi concluído o Roteiro de Adaptação de Baku, com diretrizes para 2026–2028.
59 indicadores para mensurar progresso
Foram aprovados 59 indicadores voluntários que permitirão acompanhar avanços em água, saúde, ecossistemas, infraestrutura e segurança alimentar — um passo essencial para transformar metas em políticas concretas.
Pessoas no centro
O novo mecanismo de transição justa coloca equidade, trabalho digno e inclusão social como eixos da ação climática. Já o novo Plano de Ação de Gênero amplia a liderança feminina, especialmente de mulheres indígenas, afrodescendentes e rurais.
Aceleração da implementação
A Decisão Mutirão reforça que a COP30 é a COP da entrega. Entre as iniciativas:
- Acelerador Global de Implementação, para apoiar países em suas NDCs.
- Missão Belém para 1,5 °C, que eleva ambição em mitigação e adaptação.
- FINI, que busca destravar até US$ 1 trilhão em investimentos para adaptação em três anos.
- Plano de Ação de Saúde de Belém, priorizando saúde climática.
- Acelerador RAIZ, para restaurar terras degradadas e mobilizar capital privado.
Fundo Florestas Tropicais Para Sempre
O Brasil lançou um mecanismo inédito que remunera países tropicais pela conservação comprovada de florestas. Em sua fase inicial, já mobilizou mais de US$ 6,7 bilhões e reúne 63 países apoiadores. Ele inaugura uma economia global que transforma floresta em pé em desenvolvimento real, e não em custo.
Oceanos e economia azul
Dezessete países aderiram ao Blue NDC Challenge e comprometeram-se com soluções oceano-clima. A meta global é catalisar US$ 20 bilhões até 2030 e gerar 20 milhões de empregos ligados ao mar.
Participação social: o espírito de Belém
Com mais de 900 representantes de povos indígenas, a COP30 rompeu distâncias entre diplomacia e sociedade. A Marcha Climática e o Balanço Ético Global reforçaram a necessidade de justiça climática e solidariedade entre gerações.
Um legado que segue até 2026
O Brasil continuará presidindo a COP até novembro de 2026, e o país já se comprometeu a conectar resultados diplomáticos à implementação prática — uma transição da palavra à ação.
A mensagem final de Marina Silva sintetiza o aprendizado pedagógico do encontro: enfrentar a crise climática exige persistência, coragem e cooperação contínua. E Belém mostrou que, quando esses elementos se encontram, resultados concretos acontecem — mesmo com divergências e críticas pontuais.
A próxima COP será na Austrália, mas o impulso construído na Amazônia deve continuar guiando o mundo.
Fonte: Revista40graus, colaboradores, redes sociais e COP30
