Mercado de tornozeleiras cresce, concentra poder em cinco empresas e deve dobrar receita até 2030
Dispositivo vira peça central no sistema penal brasileiro, com contratos milionários e forte dependência de serviços privadosObjeto de debates políticos, decisões judiciais e manchetes constantes, a tornozeleira eletrônica tornou-se um produto peculiar no mercado brasileiro: não é vendida, apenas alugada, e rende um negócio altamente concentrado. Cinco empresas disputam o setor — e todas já contam com lucros em expansão, impulsionados pelo aumento do monitoramento eletrônico no país.
O número de tornozeleiras em uso no Brasil saltou de forma impressionante. Entre 2016 e 2024, a quantidade de dispositivos cresceu 20 vezes, chegando a cerca de 122 mil unidades no ano passado. E, segundo a própria indústria, o cenário ainda está longe do teto. “Nos próximos cinco anos, este número vai dobrar”, afirma Sávio Bloomfield, presidente da Spacecom, líder absoluta do mercado com 80% de participação.
Ironias do destino: embora domine o setor, a Spacecom não forneceu o equipamento usado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro — este veio da UE Brasil Tecnologia, que, diante do interesse público, optou pelo silêncio sob o argumento de segurança.
O mercado inclui ainda as brasileiras Geocontrol e Synergye, além da britânica Buddi. Todas disputam contratos com governos estaduais, os únicos clientes desse setor estratégico. E o negócio é rentável: cada tornozeleira custa, em média, R$ 250 por mês por pessoa monitorada. Comparado ao gasto anual de cerca de R$ 28 mil por preso no regime fechado, a matemática agrada ao poder público.
As empresas oferecem não só o equipamento, mas todo o pacote: monitoramento 24 horas, centrais operacionais, manutenção e equipes especializadas. O dispositivo, que combina GPS, modem e sensores antifraude, precisa detectar desde rompimento da pulseira até tentativas de aquecimento — como já demonstrado em casos de grande repercussão.
Fabricadas com materiais resistentes, como poliuretano e fibra sintética, algumas unidades têm componentes importados dos EUA, Reino Unido ou China. A Spacecom garante tecnologia 100% nacional. Cada tornozeleira custa entre R$ 2.000 e R$ 4.500 para ser produzida, e a tendência, segundo o setor, é a miniaturização e aumento da autonomia de bateria.
Em 2024, o mercado de tornozeleiras movimentou cerca de R$ 30,5 milhões apenas em locação dos equipamentos. Considerando monitoramento, manutenção e demais serviços, o faturamento é ainda maior. E dentro do amplo segmento de vigilância eletrônica — que envolve câmeras, biometria e softwares avançados — o total chegou a R$ 14 bilhões no país.
O uso ganhou projeção na Lava Jato, quando a doleira Nelma Kodama transformou a tornozeleira em acessório de moda nas redes sociais. Desde então, o setor nunca mais saiu dos holofotes — e nem das planilhas de orçamentos públicos.
Com a tendência de adoção de penas alternativas e a busca por redução da população carcerária, o futuro parece assegurado. Como resume Bloomfield, de forma nada tímida: “É um dos mercados que mais vai se beneficiar das políticas de diminuição do encarceramento no país.”
Fonte: Revista40graus, colaboradores e Senappen (Secretaria Nacional de Políticas Penais) e outras mídias
