O curioso “carrossel financeiro” do caso Master chama atenção dos investigadores
Apurações apontam caminhos do dinheiro enquanto Justiça analisa possíveis irregularidadesSe dependesse apenas da criatividade financeira, o enredo envolvendo o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e o antigo Banco Master talvez entrasse para algum manual curioso de engenharia bancária. Mas, como costuma acontecer quando cifras bilionárias entram em cena, quem decidiu examinar o roteiro com lupa foi a Polícia Federal e agora a história segue sob análise da Justiça.
Segundo documentos das investigações, o banco, que acabou liquidado pelo Banco Central do Brasil em novembro, teria operado uma espécie de circuito financeiro em que o dinheiro fazia longas viagens por fundos, empresas e aplicações antes de, supostamente, chegar a pessoas ligadas ao próprio grupo.
Os relatórios policiais citam movimentações que envolveriam familiares e pessoas próximas ao ex-banqueiro. Entre os nomes mencionados nas apurações aparecem o pai, Henrique Moura Vorcaro, além da irmã, Natalia, e outros parentes. A defesa de Henrique Vorcaro já afirmou que são incorretas as informações divulgadas sobre a titularidade de uma conta citada em decisão judicial. As defesas dos demais mencionados não comentaram o caso até a publicação das informações.
A engrenagem investigada
De acordo com os investigadores, o suposto mecanismo funcionaria mais ou menos como um “vai e volta” financeiro digno de um labirinto contábil.
Tudo começaria com a venda de CDBs com rentabilidade bastante atrativa em plataformas de investimento. Esse tipo de título, conhecido como Certificado de Depósito Bancário, é comum no mercado e serve para captar recursos de investidores. No caso investigado, essa estratégia teria atraído mais de R$ 50 bilhões.
A partir daí, segundo a apuração, parte desses recursos era direcionada para fundos de crédito que tinham como único cotista o próprio banco. Dentro desses fundos, o dinheiro passaria a ser utilizado para conceder empréstimos a empresas.
Até aqui, tudo poderia parecer uma operação financeira convencional. O ponto que despertou o interesse das autoridades é que algumas dessas empresas seriam ligadas a pessoas próximas ao ex-banqueiro ou a estruturas consideradas de fachada.
Assim, na narrativa investigativa, o dinheiro sairia do banco, passaria por fundos e empresas e, depois de percorrer uma longa trilha de CNPJs, acabaria voltando para estruturas relacionadas ao próprio grupo.
Empresas, fundos e um circuito curioso
Um dos exemplos citados nos relatórios envolve uma empresa chamada Clínica Mais Médico, que teria recebido cerca de R$ 361 milhões de um fundo ligado ao banco. De acordo com a investigação, a empresa estaria registrada em nome de um intermediário que teria concedido procuração a alguém ligado à família do ex-banqueiro.
Outro ponto que chamou atenção dos investigadores foi o fato de alguns desses fundos também comprarem CDBs do próprio banco. Na prática, o dinheiro sairia da instituição, circularia pelo sistema e retornaria novamente ao próprio banco antes de ser gradualmente resgatado.
Segundo os relatórios, ao longo desse trajeto parte dos recursos acabaria direcionada a empresas vinculadas ao grupo, incluindo uma companhia chamada Super Empreendimentos e Participações.
Para os investigadores, o volume e a complexidade das operações indicariam uma estrutura coordenada para movimentação de recursos fora dos interesses da instituição financeira. Essa interpretação, no entanto, ainda está sob análise judicial.
A “fábrica” de ativos inflados
Outra frente da investigação aponta para um processo que teria inflado artificialmente ativos do banco. Isso incluiria a compra de papéis de valor praticamente simbólico que, ao circularem entre fundos ligados à instituição, teriam sido reavaliados por valores muito maiores.
Como esses fundos pertenciam ao próprio banco, essa valorização elevaria o tamanho aparente dos ativos da instituição o que, em tese, permitiria captar ainda mais recursos no mercado.
Especialistas apontam que, caso essas práticas sejam confirmadas pela Justiça, elas poderiam caracterizar crimes financeiros previstos na legislação brasileira, como gestão fraudulenta e lavagem de dinheiro.
Por enquanto, o caso segue em investigação e todos os envolvidos têm direito à ampla defesa e ao contraditório. No fim das contas, será a Justiça quem decidirá se o roteiro descrito pelas autoridades foi apenas um emaranhado de operações financeiras ousadas ou algo que ultrapassou os limites da lei.
Fonte: Revista40graus, FS, mídias, redes sociais e colaboradores
