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Por que jejuar não vai “limpar” seu corpo — nem ajudar a vencer o câncer

Especialistas alertam: jejum prolongado pode causar desnutrição, desequilíbrios graves e até agravar quadros de câncer
Redação

De tempos em tempos, uma nova “cura milagrosa” para o câncer ganha força nas redes sociais. De superalimentos e suplementos a dietas extremas, as promessas são sempre ousadas — e quase sempre enganosas.
A mais recente tendência prega que um jejum de água por 21 dias seria capaz de “matar de fome” as células cancerosas e permitir que o corpo se cure sozinho. A ideia parece simples e até empoderadora. Mas a biologia humana está longe de ser tão direta.

Jejum não “mata” o câncer

O câncer não é uma única doença, e o metabolismo humano não alterna entre estados “doente” e “saudável” de forma tão linear.
Embora o jejum influencie a forma como as células usam energia, não há nenhuma evidência científica confiável de que ele possa eliminar tumores.
Pelo contrário: o jejum prolongado pode ser perigoso, especialmente para pessoas fragilizadas pelo câncer ou em tratamento.

O que a ciência realmente sabe

Pesquisas mostram que o jejum, em suas várias formas — como o jejum intermitente ou a restrição calórica de curto prazo — pode afetar o metabolismo e a regeneração celular.
Estudos de 2024, por exemplo, observaram que o jejum suprime temporariamente a atividade das células-tronco intestinais, seguido de uma fase regenerativa intensa quando a alimentação é retomada.
Essa reação é impulsionada por uma via conhecida como mTOR, que regula o crescimento e a reparação celular.

Foto: Vetre/AdobeStockHá vários tipos de jejum intermitente; no 16h/8h, por exemplo, a pessoa fica 16 horas sem comer e tem uma janela de 8 horas para se alimentar
Há vários tipos de jejum intermitente; no 16h/8h, por exemplo, a pessoa fica 16 horas sem comer e tem uma janela de 8 horas para se alimentar

Apesar de ajudar na recuperação dos tecidos, essa mesma via pode criar uma janela de vulnerabilidade — momento em que mutações prejudiciais podem ocorrer com mais facilidade, aumentando o risco de formação de tumores.

O perigo dos jejuns extremos

A maioria das pesquisas sérias sobre jejum se concentra em períodos curtos — de 12 a 72 horas —, não em jejuns de várias semanas apenas com água.
Um jejum de 21 dias, como o promovido por influenciadores, traz riscos sérios:

Desidratação e desequilíbrio eletrolítico

Queda perigosa da pressão arterial

Perda muscular acelerada

Comprometimento do sistema imunológico

O câncer, por si só, já predispõe à desnutrição. Em muitos casos, pacientes sofrem de caquexia (perda extrema de peso e massa muscular).
Ao jejuar, o corpo perde ainda mais reservas, o que prejudica o metabolismo dos medicamentos, retarda a recuperação e aumenta o risco de infecção.

“Combinar quimioterapia com jejum prolongado pode amplificar a toxicidade e agravar a fadiga”, alertam pesquisadores.

O que está sendo estudado

Existem ensaios clínicos em andamento para entender como o jejum ou a restrição calórica controlada podem modular a resposta do corpo ao câncer.
Esses estudos, porém, são acompanhados de perto por médicos e nutricionistas, com monitoramento constante de hidratação, eletrólitos e função renal — nada parecido com os jejuns longos e não supervisionados difundidos na internet.

Jejum é tema legítimo, mas exige cautela

O jejum continua a intrigar a ciência porque ativa mecanismos ancestrais de sobrevivência, como a autofagia, em que as células reciclam componentes danificados.
Esse processo pode reduzir inflamações e melhorar o metabolismo em modelos animais, mas não há prova de que ele cure doenças graves em humanos, muito menos o câncer.

Em resumo:

O jejum pode ser estudado como ferramenta terapêutica em contextos muito específicos — nunca como substituto para o tratamento médico.

Fonte: Revista40graus, colaboradores e Justin Stebbing Professor de Ciências Biomédicas

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