Brasileirão destoa na América do Sul e pode se tornar ainda mais ‘europeu’ com ajustes da CBF
Após visita à Europa, entidade amplia decisões para aprimorar o campeonato nacional e planeja novos incrementosOito dos últimos dez títulos da Copa Libertadores foram conquistados por clubes brasileiros, sendo sete de maneira consecutiva. O recorte deixa explícita uma superioridade que vai além do quesito técnico, mas também econômico. Com uma moeda mais valorizada em relação às demais nações sul-americanas, os clubes do País nadam de braçada como os melhores do continente. Agora, novos critérios de disputa devem aproximar o futebol nacional ainda mais do europeu, que serve de espelho para o aprimoramento das competições locais.
A CBF realizou, no início de janeiro, uma viagem à Europa com dirigentes de clubes das Séries A e B e representantes de 13 federações estaduais. Em visita à Inglaterra, Espanha e Alemanha, a comitiva realizou uma imersão para se aprofundar em “conceitos, modelos de governança e estratégias das ligas e federações”, disse a entidade, em comunicado.
“O principal objetivo da CBF com esse intercâmbio foi promover um alinhamento técnico e institucional inspirado nos modelos de excelência que observamos na Europa. A ideia não é copiar, mas adaptar. Estamos trazendo aprendizados sobre governança, formação contínua, critérios de avaliação, uso de tecnologia, gestão de pessoas e financiamento da arbitragem, temas centrais nas grandes ligas europeias, para fortalecer o nosso modelo nacional por meio do GT da Arbitragem”, disse o presidente da CBF, Samir Xaud.
Ao fim do ano passado, a CBF já havia definido alterações para 2026 que poderiam ser entendidas como inspirações no futebol europeu: a implementação de um modelo próprio de fair play financeiro, a disputa do Brasileirão durante todos os meses do calendário e o uso do impedimento semiautomático, cuja estreia ainda não ocorreu por questões técnicas, mas deve acontecer ainda nesta temporada.
A primeira novidade apresentada pela CBF após a viagem à Europa foi a implementação do primeiro modelo de profissionalização da arbitragem nacional, que contemplará, inicialmente, 72 árbitros. A entidade irá investir R$ 195 milhões para o desenvolvimento do projeto e os profissionais serão remunerados com salários mensais e bônus por performance na dedicação prioritária à função, como ocorre nas principais ligas do Velho Continente.
Já em 5 de fevereiro, foi anunciado que a Série B do Campeonato Brasileiro terá, a partir de 2026, um playoff entre o terceiro e o sexto colocados para decidir quem ascende à primeira divisão — os dois primeiros já têm o acesso garantido. O novo formato foi aprovado pela maioria dos clubes na reunião do Conselho Técnico da CBF. Até o ano passado, os quatro clubes mais bem colocados subiam diretamente à Série A.
A mudança atende um desejo dos times de ampliar as chances de acesso. A última vez em que um playoff foi disputado para definir os classificados à primeira divisão foi em 2002. Nos três anos seguintes, a definição ocorreu por meio de quadrangulares. A partir de 2006, o formato de pontos corridos passou a determinar a competição.
O formato adotado pela Série B a partir desta temporada tem inspiração no futebol europeu.Os países com as cinco principais ligas do continente (Inglaterra, Espanha, França, Itália e Alemanha) definem o acesso por meio de playoffs, cada um à sua maneira. Os alemães, por exemplo, têm como regra a disputa entre o terceiro colocado da segunda divisão e o 16º colocado da primeira, em um playoff de ida e volta, para definir quem fica com a última vaga na elite.
Cabe ressaltar que, em todas as ligas citadas, o máximo de três times sobem para a primeira divisão — França e Alemanha contam 18 em vez de 20 clubes, como ocorre na Inglaterra, Espanha, Itália e Brasil. A CBF estuda a possibilidade de diminuir de quatro para três o número de rebaixados, pauta que conta com o apoio de Vasco e Santos. O presidente santista, inclusive, já vem comentando o tema publicamente desde a temporada passada.
“É um campeonato muito difícil. Ter quatro times caindo é muito grave, é muito forte. Tem que ser avaliado”, disse Teixeira, em outubro de 2025, quando o Santos lutava contra o descenso.
Naturalmente, a ideia não conta com o apoio de clubes da segunda divisão. Em contrapartida, a CBF vê a alteração também como uma maneira de proporcionar aos clubes que sobem à Série A a possibilidade de maior estabilidade na elite nacional. Outras pautas que vão ser debatidas ao longo do ano e que podem apresentar uma resolução para 2027 são a limitação do número de jogadores estrangeiros e a padronização dos gramados sintéticos.
‘Hermanos’ no retrovisor
Enquanto o futebol brasileiro trabalha para aprimorar o Brasileirão, cujo formato consolidado de pontos corridos foi iniciado em 2003, os outros países mantêm diferentes modelos de competição. Apenas o Chile, com 17 times na primeira divisão, adota o mesmo sistema utilizado no Brasil.
A maioria dos campeonatos na América do Sul é disputada nos modelos de “Apertura” e “Clausura” (abertura e fechamento), realizados em semestres diferentes no formato de mata-mata nas fases finais e com cada campeão reconhecido nacionalmente. São os casos de Argentina, Paraguai, Colômbia, Peru, Venezuela e Bolívia. O mesmo acontece em Uruguai e Equador, mas neste caso é disputado uma final entre os dois campeões para definir o grande vencedor da temporada.
A Argentina viveu grande polêmica em relação ao formato do Campeonato Argentino quando inventou um terceiro troféu. A Associação de Futebol Argentino (AFA) decidiu também premiar a equipe de melhor desempenho na pontuação acumulada da temporada (Apertura e Clausura). Assim, o Rosário Central, que contou com o retorno do craque Angel Di Maria, foi proclamado “Campeão da Liga”, o que gerou críticas de outros clubes, como Estudiantes e Banfield.
Dias depois, a AFA anunciou uma ampliação no calendário nacional, com incríveis oito troféus em disputa. Apertura, Clausura, Copa Argentina, Campeão da Liga, Troféu dos Campeões, Supercopa Internacional, Supercopa Argentina e Recopa dos Campeões. “Nosso torneio não é uma liga para poucos: é popular, competitivo e promove o desenvolvimento de novos talentos. Subestimá-lo é ignorar nossa história e a contribuição que damos ao futebol mundial”, disse o presidente Chiqui Tapia ao comentar as alterações.
Moeda impõe desafio a rivais
Último clube de fora do Brasil a vencer a Libertadores, o River Plate é conhecido na Argentina pelo apelido de “milionários”, alcunha que ganhou em 1931, no início da profissionalização do futebol local. O termo era dito de maneira pejorativa pelos rivais, que debochavam do fato de o clube ter gasto mais de 100 mil pesos à época para montar o time que veio a ser campeão nacional naquele ano.
O River segue como o clube de maior poderio financeiro da Argentina. Recentemente, o clube olhou para o futebol brasileiro e contratou três jogadores em operações financeiras que, somadas, podem custar US$ 16,5 milhões (aproximadamente R$ 85,8 milhões): o lateral-esquerdo Matías Viña (ex-Palmeiras e Flamengo) e os volantes Fausto Vera (ex-Corinthians e Atlético-MG) e Aníbal Moreno (ex-Palmeiras).
Na Argentina, as movimentações foram vistas como uma maneira ousada de atacar o mercado, o que não é novidade para o clube, que chegou a gastar 52,5 milhões de euros (R$ 329,5 milhões, na cotação atual) em contratações em 2025. Os números do River Plate foram impulsionados pela venda da joia Franco Mastantuono por 63,2 milhões de euros (R$ 396,5 milhões), ao Real Madrid. Mesmo com a injeção financeira, os milionários não se classificaram para a Libertadores.
Ao comparar o cenário com o futebol brasileiro, porém, nota-se uma discrepância que ajuda a explicar por que os argentinos não venceram mais a principal competição do continente. O atual campeão, Flamengo, realizou em janeiro a compra de Lucas Paquetá junto ao West Ham, da Inglaterra, por 42 milhões de euros (cerca de R$ 260 milhões na cotação atual). Trata-se da contratação mais cara da história do futebol brasileiro, superando a compra de Gerson pelo Cruzeiro, semanas antes, estipulada em 27 milhões de euros (R$ 187 milhões).
Com a aquisição de um único jogador, o Flamengo realizou quase 80% de todo o gasto do River em 2025, justamente no ano em que o clube argentino fez sua movimentação mais ousada no mercado de transferências. O exemplo evidencia como a força da moeda e a capacidade de investimento dos clubes brasileiros ampliaram a distância em relação aos rivais sul-americanos, transformando a disputa continental em um cenário cada vez mais desequilibrado e, agora, com o Brasil olhando para o outro lado do Atlântico.
Fonte: Estadão
