Da periferia de São Paulo para o mundo: Rosana Paulino transforma arte em resistência

Filha de faxineira e pintor de paredes leva a força da arte brasileira à Bienal de Veneza
Redação

A trajetória da artista plástica Rosana Paulino é uma das maiores demonstrações de perseverança, talento e transformação social por meio da arte brasileira. Filha de uma faxineira e de um pintor de paredes, criada na Zona Norte de São Paulo, Rosana saiu de uma infância simples para se tornar uma das artistas contemporâneas mais respeitadas do mundo.

Foto: Raoni Maddalena / BBC News Brasil
Rosana Paulino no jardim de sua casa, em Pirituba, São Paulo

Hoje, aos 59 anos, a paulistana representa o Brasil na tradicional Bienal de Veneza, ao lado da artista Adriana Varejão, levando ao cenário internacional uma produção artística marcada pela ancestralidade, pela resistência negra, pela valorização da mulher e pela reflexão sobre as marcas históricas do racismo e da escravidão no país.

Foto: Rafa Jacinto/Fundação Bienal de São Paulo
'Comigo Ninguém Pode', nome da exposição do Pavilhão do Brasil em Veneza, surge da obra à direita, da série 'Senhora das Plantas', de Paulino. À esquerda, 'Monocromo Maragogipinho', de Adriana Varejão

Durante décadas, Rosana Paulino enfrentou um ambiente artístico elitizado e excludente, sendo muitas vezes “a única negra da sala”. Ainda assim, transformou obstáculos em combustível para criar, ensinar e abrir caminhos para novas gerações de artistas negros e negras no Brasil.

Continue lendo após a publicidade
Foto: Rafa Jacinto/Fundação Bienal de São Paulo
Em Aracnes, Paulino costura retratos de mulheres negras com fios que remetem a teias de aranhas

Criada na Freguesia do Ó, em uma família humilde, Rosana encontrou na criatividade uma forma de enxergar o mundo. Sem luxo, mas cercada de afeto e incentivo, aprendeu desde cedo a construir brinquedos, desenhar e criar com as próprias mãos. A mãe, que trabalhava como faxineira e bordadeira, foi peça fundamental no despertar artístico da filha.

Foto: Rafa Jacinto/Fundação Bienal de São Paulo
Em 'Aracnes', Paulino costura retratos de mulheres negras com fios que remetem a teias de aranhas

Foi ainda adolescente que ingressou em cursos de desenho no Liceu de Artes e Ofícios, até conquistar espaço na Universidade de São Paulo, onde estudou artes visuais e posteriormente concluiu doutorado.

Sua obra ganhou reconhecimento internacional ao unir arte, ciência, memória e crítica social. Rosana desconstrói teorias racistas do passado e denuncia a desumanização histórica da população negra, utilizando desenhos, gravuras, esculturas, bordados e instalações para provocar reflexão e conscientização.

Foto: Rafa Jacinto/Fundação Bienal de São Paulo
A escultura 'Crisálida' (2026) foi feita por Rosana Paulino especialmente para a Bienal de Veneza, em bronze, dando forma ao desenho de uma gravura que fez 20 anos atrás

Ao longo da carreira, teve obras adquiridas por instituições renomadas como o Museum of Modern Art e a Tate Modern, além de exposições em cidades como Nova York, Bruxelas e Buenos Aires.

Mesmo com reconhecimento mundial e convites para viver fora do Brasil, Rosana escolheu permanecer em sua região de origem, mantendo seu ateliê em Pirituba, na capital paulista. Para ela, crescer profissionalmente não significa abandonar suas raízes.

A artista defende que a arte também deve ter função social. Por isso, trabalha para transformar espaços da periferia em centros de pesquisa, formação e acolhimento cultural para jovens artistas e estudantes.

Sua história simboliza a força da arte brasileira e a capacidade do povo brasileiro de transformar dificuldades em potência criativa. Rosana Paulino não apenas conquistou espaço no cenário mundial — ela ajudou a abrir portas para que muitos outros também possam ser vistos, ouvidos e reconhecidos.

Mais do que uma artista consagrada, Rosana tornou-se referência de resistência, identidade, educação e valorização da cultura brasileira.

Leia também