Empresários articulam ofensiva contra o fim da jornada 6x1

Estratégia inclui adiar votação, investir em campanhas e apresentar alternativas para reduzir impacto da proposta
Redação

O debate sobre o fim da jornada 6x1 ganhou novo capítulo — e o setor empresarial decidiu que não vai assistir da arquibancada. Associações, frentes parlamentares e lideranças empresariais montaram uma estratégia para reagir à proposta que prevê ao menos dois dias de descanso semanal aos trabalhadores.

O plano tem três frentes bem definidas: tentar empurrar a votação para depois das eleições de outubro, produzir estudos técnicos que apontem possíveis impactos econômicos e apresentar alternativas consideradas mais “palatáveis” ao mercado. Afinal, quando o assunto é reduzir dias de trabalho, a conta sempre vira protagonista da conversa.

Foto: Tânia Rêgo - 6.fev.2026/Agência Brasil
Trabalhadores fazem manifestação no Rio pelo fim da jornada de trabalho 6x1

A movimentação ganhou força após o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva enviar ao Congresso um projeto sobre o tema e o presidente da Câmara, Hugo Motta, decidir encampar a PEC apresentada pela deputada Erika Hilton.

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Nos bastidores, empresários avaliam que a proposta tem forte apelo popular, o que dificulta resistências abertas no primeiro semestre. A leitura é pragmática: em ano eleitoral, poucos parlamentares querem votar contra algo que soe como mais descanso para o trabalhador.

Aposta no calendário

Entidades como a Confederação Nacional dos Transportes e a Confederação Nacional da Indústria defendem que o debate seja feito com calma e fora da pressão eleitoral. O argumento é que mudanças estruturais nas relações de trabalho exigem análise técnica e previsibilidade. Traduzindo do economês: melhor discutir quando os holofotes estiverem menos acesos.

A escolha por uma Proposta de Emenda à Constituição, que exige quórum elevado e tramitação mais longa, pode ajudar a alongar o processo. Na Câmara dos Deputados do Brasil, a Comissão de Constituição e Justiça será o primeiro campo de batalha, com pedidos de audiências públicas já sendo preparados para ampliar o debate.

Propostas alternativas

Entre as alternativas defendidas por parlamentares ligados ao setor produtivo estão a redução gradual da jornada semanal de 44 para 40 horas até 2030, a possibilidade de remuneração por hora trabalhada e a desoneração ampla da folha de salários. A ideia é flexibilizar em vez de fixar um modelo único para todo o país.

Foto: Reprodução | Marcelo Camargo/Agência Brasil
Foto da Carteira de Trabalho e Previdência Social (CTPS) nas versões digital e impressa

Representantes do setor de bares e restaurantes estimam que a mudança poderia elevar custos operacionais em até 20 por cento, com reflexo direto nos preços ao consumidor. Já no transporte, o argumento é de que há dificuldade para preencher vagas, especialmente de motoristas, o que tornaria a adaptação mais complexa.

Ao mesmo tempo, defensores da proposta sustentam que a redução da jornada pode melhorar qualidade de vida e produtividade.

No fim das contas, o embate promete ser longo. De um lado, a bandeira do descanso ampliado. Do outro, a planilha de custos. E, no meio, o Congresso tentando equilibrar votos, pressões e calendário eleitoral — porque, no Brasil, até o relógio do trabalhador entra na disputa política.

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