Com salário de R$ 90 mil, desembargadora compara cortes a “escravidão”
Fala gera reação ao contrastar altos vencimentos com realidade do salário mínimo
A recente declaração da desembargadora Eva do Amaral Coelho, do Tribunal de Justiça do Pará, chamou atenção não exatamente pela empatia social, mas pelo contraste evidente com a realidade da maioria dos brasileiros.
Durante sessão da 3ª Turma de Direito Penal, a magistrada criticou a decisão do Supremo Tribunal Federal que limitou o pagamento dos chamados “penduricalhos” a 35% do teto constitucional. Segundo ela, a medida poderia levar membros do Judiciário a um “regime de escravidão”.
A fala veio acompanhada de um desabafo sobre dificuldades futuras para pagar contas. Um cenário preocupante ao menos na perspectiva de quem recebeu, apenas em março, cerca de R$ 91 mil líquidos (ou R$ 117 mil brutos).
A decisão do STF, tomada por unanimidade, busca justamente estabelecer critérios mais claros e conter excessos nas chamadas verbas indenizatórias, com expectativa de economia de aproximadamente R$ 7,3 bilhões por ano aos cofres públicos. Ou seja, uma tentativa de aproximar a remuneração do serviço público de parâmetros mais transparentes e sustentáveis.
É nesse ponto que a declaração da desembargadora ganha contornos, no mínimo, desconectados da realidade nacional. Enquanto se fala em “escravidão” diante de possíveis ajustes em rendimentos elevados, milhões de brasileiros seguem lidando com desafios reais para fechar as contas no fim do mês.
Para efeito de comparação, o salário mínimo atual no país é de R$ 1.621, valor que sustenta grande parte da população. As projeções indicam reajustes graduais:
- R$ 1.724 em 2027;
- R$ 1.823 em 2028;
- R$ 1.925 em 2029.
Diante desses números, a fala da magistrada acaba soando menos como um alerta legítimo e mais como um comentário infeliz que, ainda que não intencional, distancia ainda mais o debate público da realidade vivida pela maioria da sociedade.
No fim das contas, talvez o verdadeiro desafio não esteja em sobreviver com menos “penduricalhos”, mas em compreender melhor o país real que existe além dos altos salários do topo do serviço público.