Feminicídio no Piauí atinge majoritariamente mulheres negras, aponta boletim

Dados revelam vítimas jovens e expõem desigualdade racial na violência de gênero
Redação

Os casos de feminicídio registrados no Piauí em 2025 evidenciam um padrão preocupante marcado por desigualdade racial e concentração entre mulheres jovens. De acordo com o 1º Boletim de Feminicídio divulgado pela Secretaria de Segurança Pública do Piauí, 86,5% das vítimas eram negras, sendo 78,4% pardas e 8,1% pretas, em um total de 37 ocorrências.

Foto: Reprodução
Violência contra mulher e o feminicidio

O levantamento reforça que a violência letal contra mulheres atinge de forma desproporcional a população negra no estado. No Brasil, pessoas pretas e pardas são consideradas negras para fins estatísticos e de políticas públicas, conforme critérios do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística e do Estatuto da Igualdade Racial.

Perfil das vítimas

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A análise aponta predominância de vítimas em idade adulta, especialmente entre mulheres jovens. A faixa etária de 25 a 29 anos concentra o maior número de casos, com 16,2% dos registros. Em seguida aparecem mulheres de 30 a 34 anos, com 13,5%.

Também há ocorrências relevantes entre adolescentes de 15 a 19 anos e mulheres de 40 a 44 anos, ambas com 10,8%. Casos envolvendo idosas também foram identificados, com destaque para a faixa de 65 a 79 anos, que representa 8,1% das vítimas.

Embora os registros alcancem todas as idades, os dados confirmam uma concentração entre mulheres mais jovens, padrão já observado em anos anteriores. Entre mulheres pardas, a distribuição etária é mais ampla, enquanto entre vítimas brancas há maior concentração em grupos específicos, como entre 30 e 34 anos.

Desigualdade racial e contexto da violência

O boletim destaca que o feminicídio no estado apresenta um forte recorte racial, refletindo desigualdades estruturais relacionadas a fatores sociais, econômicos e ao acesso à proteção. Mulheres negras aparecem em maior número na maioria das faixas etárias e estão mais expostas a diferentes formas de violência letal.

A análise também mostra diferenças no tipo de instrumento utilizado nos crimes. Entre mulheres brancas, predominam casos com arma branca (60%) e arma de fogo (40%). Já entre mulheres negras, há maior diversidade de meios, com destaque para outros instrumentos (37,5%), seguidos por arma branca (34,38%), arma de fogo (15,63%) e envenenamento (12,5%).

De forma geral, o uso de arma branca é o mais frequente, representando 37,8% dos casos, seguido por arma de fogo (18,9%) e envenenamento (10,8%). Esses dados indicam, segundo o relatório, o caráter interpessoal e, muitas vezes, íntimo da violência.

Quando e onde ocorrem os crimes

Os feminicídios acontecem ao longo de toda a semana, mas há maior incidência aos domingos, que concentram 27% dos registros. Em relação aos horários, a maior parte ocorre no período da tarde (40,5%), seguido pela manhã (32,4%) e noite (21,6%).

Geograficamente, os casos estão distribuídos por várias regiões do estado. Teresina lidera com 24,3% das ocorrências, seguida por Parnaíba, com 16,2%. No entanto, o fenômeno também atinge cidades menores, demonstrando sua abrangência.

Desafio estrutural

O boletim aponta que o feminicídio é resultado de um ciclo de violência que se desenvolve ao longo do tempo, frequentemente dentro de relações próximas entre vítima e agressor. Fatores como desigualdade racial, relações de poder e violência doméstica ajudam a explicar o problema.

Diante desse cenário, o enfrentamento à violência contra a mulher exige políticas públicas que considerem essas múltiplas dimensões, com foco na prevenção e no fortalecimento da rede de proteção às vítimas.

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