Venezuela apela à ONU por Maduro enquanto promove anistia seletiva em casa
Governo interino pede libertação imediata do ex presidente preso nos Estados Unidos e tenta convencer o mundo que vive nova fase
RedaçãoA diplomacia venezuelana resolveu recorrer ao palco global para exigir aquilo que chama de “justiça”. Nesta segunda feira, representantes do país pediram à ONU a libertação imediata de Nicolás Maduro, detido nos Estados Unidos desde janeiro e atualmente respondendo a julgamento por tráfico de drogas em Nova York.
Maduro foi capturado em 3 de janeiro durante uma operação conduzida pelos Estados Unidos em Caracas. A ação também levou à prisão de sua esposa, Cilia Flores. Diante do tribunal americano, o ex presidente declarou se considerar um “prisioneiro de guerra”, numa narrativa que tenta reposicionar o caso como embate geopolítico e não como processo criminal.
O pedido formal foi apresentado pelo chanceler Yván Gil ao Conselho de Direitos Humanos da ONU, que reivindicou a libertação do que chamou de “presidente constitucional da República Bolivariana da Venezuela”, insistindo na legitimidade do mandato encerrado em meio a forte contestação internacional.
Desde a saída forçada de Maduro, quem assumiu o comando foi Delcy Rodríguez. A líder interina tratou de promover mudanças estratégicas. Entre elas, aproximou-se da administração de Donald Trump, cedeu o controle da indústria petrolífera e iniciou um processo de libertação de presos políticos que culminou numa lei de anistia aprovada em 19 de fevereiro.
A mesma lei que abriu as portas de algumas celas também levantou questionamentos. Segundo a ONG Foro Penal, 65 pessoas conquistaram liberdade plena nos últimos dias, enquanto o presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, informou que 1.500 pedidos de anistia foram apresentados à Justiça. Ainda assim, organizações de direitos humanos classificam a medida como limitada, já que militares e outros grupos permanecem fora do alcance do benefício.
Um dos símbolos do antigo regime, a prisão de Helicoide, foi oficialmente desativada. O governo anunciou que o local passará por reformas para se transformar em centro social e esportivo da polícia. Ativistas preferem outra destinação: um museu memorial que relembre os abusos denunciados ao longo dos anos.
Maduro governou de 2013 a 2026, período marcado por denúncias internacionais, investigação do Tribunal Penal Internacional por crimes contra a humanidade e uma reeleição em 2024 cercada de acusações de fraude. Agora, o discurso oficial venezuelano afirma que os direitos humanos não podem ser usados como instrumento político e defende o fim das sanções contra o país.
No cenário europeu, a chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, sinalizou que poderá propor a suspensão das sanções contra Delcy Rodríguez após a aprovação da anistia. O apoio não é automático e dependerá de consenso entre os membros do bloco. A Espanha já demonstrou simpatia pela iniciativa.
Enquanto isso, em Nova York, o processo contra Maduro segue seu curso regular. Em Caracas, o novo governo tenta convencer a comunidade internacional de que vive um momento de reconstrução institucional. Entre pedidos de libertação externa e promessas de reformas internas, a Venezuela busca reescrever sua própria narrativa diante do mundo.