Alcolumbre transforma sabatina em leilão político — e ainda quer pressa para bater o martelo

Senado vive clima de pregão improvisado enquanto o presidente da Casa tenta vender seu apoio como se fosse um ativo raro
Gustavo Henrique ou Gustavo pela Cidade

O senador Davi Alcolumbre parece ter descoberto uma nova modalidade legislativa: a política como negócio de balcão. Entre um aceno e outro, o presidente do Senado resolveu anunciar que já teria 60 votos para derrubar a indicação de Jorge Messias ao STF — número que até seus aliados acham tão real quanto liquidação de loja que nunca fecha.

Foto: Gabriela Biló
O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), queria que o presidente da República indicasse Rodrigo Pacheco (PSD-MG) para o STF, mas o escolhido foi Jorge Messias

Em uma demonstração de eficiência incomum, Alcolumbre ameaça fazer uma sessão relâmpago para impedir que o governo alcance os 41 votos necessários. Afinal, quando é para apressar o próprio roteiro, o relógio funciona; quando é para garantir votação tranquila de autoridades, aí o tempo vira mera sugestão.

O governo federal, que tem a prerrogativa constitucional de indicar ministros do STF, tenta manter a liturgia. Alcolumbre, por outro lado, parece mais inclinado a transformar a sabatina em vitrine de influência. Senadores descrevem o clima como uma disputa para ver quem registra o voto mais rápido — quase um game show institucional.

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O Planalto, claro, prefere negociar institucionalidade, não bravatas. Há cargos importantes em aberto, como cadeiras no Cade, na ANA e na CVM, mas a escolha para o Supremo é inegociável: renunciar a essa prerrogativa seria o presidente abrir mão do próprio papel constitucional — algo que nem o mais criativo dos operadores políticos ousaria propor.

Foto: Reprodução | RICARDO STUCKERT / PR
O advogado-geral da União, Jorge Messias, ao lado do presidente do Brasil, Lula

Messias, por sua vez, cumpre o ritual democrático: conversa com senadores, demonstra preparo técnico e insiste, com razão, que não pode ser punido por um mal-estar político alheio. Enquanto isso, Alcolumbre tem se recusado até a encontrá-lo, preferindo fazer campanha explícita por outro nome.

Com a sabatina marcada às pressas para 10 de dezembro, governistas tentam ganhar tempo e lembram que o Senado não é sala de pregão. Mas Alcolumbre insiste em operar a Casa como se cada voto fosse um ativo negociável — sem perceber que, quando a política vira negócio, o desgaste costuma sair mais caro do que imagina.

E no fim das contas, cabe ao plenário decidir se a Constituição fala mais alto que o apetite político de um presidente do Senado que, ultimamente, parece confundir prerrogativa com propriedade.

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