Apoio ao fim da escala 6 por 1 cresce e chega a 71% dos brasileiros, aponta Datafolha

Pesquisa mostra avanço no apoio à redução da jornada semanal e reacende debate no Congresso
Redação

A ideia de reduzir a jornada de trabalho no Brasil parece ganhar cada vez mais simpatizantes. Pesquisa do Datafolha mostra que 71% dos brasileiros são favoráveis ao fim da escala seis por um, modelo em que o trabalhador atua seis dias e descansa apenas um. Outros 27% se posicionaram contra a mudança e 3% não souberam opinar.

O levantamento foi realizado entre os dias 3 e 5 de março com 2.004 pessoas com 16 anos ou mais em 137 municípios do país. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%.

Foto: Gabriel Cabral
Pesquisa Datafolha mostra que 71% dos brasileiros são a favor do fim da escala 6x1 ( Carteira de Trabalho )

O apoio à mudança cresceu em relação à pesquisa anterior, realizada em dezembro de 2024, quando 64% defendiam a redução da jornada e 33% eram contrários. Ou seja, aos poucos a ideia de trabalhar um pouco menos e descansar um pouco mais vai conquistando terreno.

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No Brasil, a jornada semanal atualmente é de até 44 horas. O debate no Congresso gira em torno de reduzir esse limite. O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sinalizou que a prioridade é diminuir a carga para 40 horas semanais sem redução de salário.

Segundo o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, a lei deve estabelecer a redução da jornada enquanto a organização da escala, com dois dias de descanso semanal, pode ser definida por negociação entre empresas e trabalhadores.

A proposta em discussão no Congresso dialoga com a PEC apresentada pela deputada Erika Hilton, que propõe reduzir a jornada semanal para 36 horas.

Quem trabalha mais apoia menos

A pesquisa também revela um detalhe curioso. Entre os brasileiros economicamente ativos, 53% trabalham até cinco dias por semana, enquanto 47% trabalham seis ou sete dias.

Paradoxalmente, quem trabalha mais dias demonstra um apoio um pouco menor à mudança. Entre os que atuam seis ou sete dias por semana, 68% são favoráveis ao fim da escala. Já entre aqueles que trabalham até cinco dias, o apoio sobe para 76%.

Uma das explicações apontadas pelo estudo é o perfil desses trabalhadores. Entre quem trabalha mais dias, há maior presença de autônomos e empresários, para quem trabalhar mais horas pode significar aumento direto de renda.

Já no grupo que trabalha até cinco dias há mais funcionários públicos, cuja remuneração normalmente não varia com a carga horária.

Impacto na economia divide opiniões

Quando o assunto é o efeito da mudança nas empresas, os brasileiros ficam divididos. Para 39%, a redução da jornada teria impacto positivo. O mesmo percentual acredita que os efeitos seriam negativos.

Na pesquisa anterior, realizada em 2024, o pessimismo era maior, com 42% apontando possíveis impactos negativos.

Especialistas também divergem. Alguns estudos indicam aumento de custos, risco de redução de vagas formais e impacto no Produto Interno Bruto. Outros apontam que eventuais custos ocorreriam apenas no início e poderiam ser absorvidos com planejamento.

Qualidade de vida entra no debate

Quando a pergunta envolve qualidade de vida, a resposta dos brasileiros é bem mais direta. Para 76% dos entrevistados, a redução da jornada seria ótima ou boa para os trabalhadores.

Entre aqueles que trabalham até cinco dias por semana, esse índice chega a 81%. Já entre quem trabalha seis ou sete dias, 77% também acreditam que a mudança seria positiva.

Metade dos entrevistados, cerca de 50%, acredita que o fim da escala seis por um também teria impacto positivo para a economia do país. Outros 24% avaliam que o efeito poderia ser negativo.

No campo pessoal, 68% afirmam que a mudança traria benefícios diretos para suas próprias vidas.

Tempo para descanso ainda é desafio

O levantamento mostra ainda que quase metade da população afirma ter tempo suficiente para lazer e descanso. Ainda assim, 43% dizem que o tempo livre é insuficiente e apenas 8% consideram que têm mais tempo do que o necessário.

Entre quem trabalha seis ou sete dias por semana, 59% afirmam que o tempo para lazer é insuficiente, percentual bem maior que os 29% registrados entre quem trabalha até cinco dias.

Diferenças políticas, religiosas e geracionais

O apoio à redução da jornada também varia conforme preferências políticas. Entre os eleitores de Jair Bolsonaro, 55% defendem o fim da escala seis por um, enquanto 43% são contra.

Entre os eleitores de Luiz Inácio Lula da Silva, o apoio sobe para 82%, com 16% contrários.

No recorte religioso, 69% dos católicos apoiam a mudança e 67% dos evangélicos também são favoráveis.

A idade também influencia. Entre jovens de 16 a 24 anos, o apoio chega a 83%. Já entre pessoas com 60 anos ou mais, o índice cai para 55%.

As mulheres também demonstram maior apoio à proposta. Entre elas, 77% defendem a redução da jornada, enquanto entre os homens o percentual é de 64%.

No fim das contas, a pesquisa revela algo que não chega a ser exatamente surpreendente: quando o assunto é trabalhar menos e descansar um pouco mais, a ideia costuma encontrar bastante simpatia. O desafio, claro, é transformar essa vontade coletiva em uma equação que também funcione na prática da economia.

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