Audiência de custódia mantém prisão e expõe versão do ex-presidente sobre a tornozeleira

Bolsonaro culpa remédios, paranoia e silêncio doméstico
Gustavo Henrique ou Gustavo pela Cidade

Em audiência de custódia neste domingo (23), Jair Bolsonaro apresentou uma explicação que, no mínimo, convida o país à reflexão: segundo ele, tentou abrir a tornozeleira eletrônica porque teve uma “certa paranoia” causada por medicamentos que teriam interagido de forma inadequada. Entre eles, Pregabalina e Sertralina — combinação que, aparentemente, só produz efeitos tão seletivos quando aplicada a ex-presidentes com histórico de enredos improváveis.

Foto: Reprodução
Movimentação da imprensa em frente à Superintendência da Polícia Federal em Brasília após a prisão preventiva de Jair Bolsonaro

A juíza auxiliar do STF manteve a prisão preventiva, validando a detenção realizada pela Polícia Federal no sábado (21), após determinação do ministro Alexandre de Moraes. A ata da audiência registra que Bolsonaro disse ter achado que havia uma “escuta” na tornozeleira e, munido de um ferro de solda — ferramenta convenientemente disponível em casa —, tentou abrir o equipamento. Segundo ele, tudo ocorreu enquanto sua filha, seu irmão e um assessor estavam no local, mas nenhum teria percebido a cena.

Foto: Pedro Ladeira
Bolsonaro está preso desde sábado (22) na Superintendência Regional da PF em Brasília

O ex-presidente disse ainda que sofre de “sono picado” e que só percebeu o absurdo da situação perto da meia-noite, quando decidiu parar e comunicar os agentes. Alegou também que não tentou fugir e que a vigília convocada pelo filho Flávio Bolsonaro ficava longe demais para ser útil em qualquer ideia de tumulto estratégico — hipótese que ele, claro, nega categoricamente.

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A audiência também expôs uma espécie de desencontro médico. Bolsonaro afirmou que a endocrinologista Marina Pasolini prescreveu Sertralina sem avisar os outros médicos responsáveis por seu acompanhamento. O trio de profissionais ganhou destaque após a defesa alegar agravamento de saúde para tentar manter a prisão domiciliar — pedido anterior à prisão preventiva.

Marina Pasolini, autorizada por Moraes a atendê-lo em casa e descrita em seu perfil profissional como especialista em emagrecimento, chegou a visitá-lo na superintendência da PF no sábado. Já os médicos que historicamente o acompanham disseram não conhecê-la.

Entre versões, contradições e justificativas que não passam incólumes ao crivo da ironia, o fato é que a prisão preventiva foi mantida. E, enquanto Bolsonaro atribui suas ações a medicamentos, paranoias momentâneas e coincidências domésticas, resta ao país ponderar até que ponto é possível sustentar explicações que soam mais como ensaios de desculpa do que como asserções de responsabilidade.

O episódio, afinal, diz menos sobre farmácia e mais sobre limites — especialmente aqueles que não deveriam ser ultrapassados com ferro de solda.

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