Réu diz ser “vítima”, Justiça segue o rito — e fatos seguem incomodando
Alandilson reclama de “perseguição”, enquanto Ministério Público exibe documentos que falam mais alto que discursos
RedaçãoAo deixar o Fórum Eleitoral rumo à Cadeia de Altos, por volta das 13h45 desta sexta (28), o réu Alandilson Cardoso soltou a frase pronta do dia: “Estão querendo pegar o Alandilson para Cristo.” Nada como um pouco de martírio para tentar suavizar acusações que incluem organização criminosa, corrupção eleitoral, lavagem de dinheiro, usura e violação de sigilo de voto.
Alandilson falou por 20 minutos à própria defesa, encerrou cedo e seguiu viagem. Do lado oposto, o Ministério Público diz ter “documentação robusta” indicando ligação direta do réu com o Bonde dos 40, sustentada por registros bancários, transações e vínculos com integrantes da facção. Fatos, afinal, não têm o hábito de se emocionar com frases dramáticas.
A defesa ainda pediu ao STF a suspensão da audiência — tentativa que aguarda análise do ministro Gilmar Mendes. A movimentação não impediu o andamento do dia: Emanuelly Pinho também depôs, e a vereadora Tatiana Medeiros já havia prestado o depoimento mais longo, cerca de duas horas.
Tatiana, que namorou Alandilson por cinco meses, negou crime eleitoral e exibiu um vídeo sobre o Instituto Vamos Juntos — entidade apontada na denúncia como instrumento para compra de votos. A juíza autorizou a exibição, embora os promotores tenham lembrado que o material já constava no processo. Tatiana, ao final, enviou um recado à imprensa: não falará com a mídia local, mas desejou “Feliz Natal e Ano Novo”, em tom protocolar.
O clima esquentou quando surgiu a discussão sobre o extravio de 900 cestas básicas do instituto suspenso. Promotores afirmam que defenderam a distribuição; a defesa não se manifestou, e o processo foi arquivado. O advogado de Tatiana diz que o MP pediu o fechamento da entidade e promete solicitar reabertura. No processo, porém, prossegue a acusação de que o instituto funcionou como caixa e instrumento de compra de votos, inclusive no dia da eleição — com movimentações bancárias que, segundo o MP, não deixam muito espaço para interpretações criativas.
“As provas são robustas”, resumiu o promotor Plínio Fontes, mencionando PIX para lá, PIX para cá, e listas de eleitores circulando como se fossem parte de um manual de campanha paralela.
Nesta sexta, cinco réus prestariam depoimento: Tatiana, Alandilson, Emanuelly Pinho, Bruna Raquel e Sávio França. A vereadora e Alandilson chegaram ao Fórum às 8h40, escoltados, em audiência que soma 65 depoimentos entre testemunhas e réus — um trabalho extenso que segue o rito, apesar das tentativas de dramatização.
Enquanto isso, a Justiça avança, o Ministério Público apresenta documentos, e a narrativa de “perseguição divina” tenta enfrentar aquilo que costuma ser implacável: a materialidade das provas.
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