Troca o nome, mas não engana: Polícia Federal desmonta fraude em títulos de capitalização
Operação Aleatorius mostra que, no Brasil, mudar fachada não basta para driblar a lei — nem a PF
RedaçãoA Polícia Federal mostrou que, quando o assunto é fraude travestida de legalidade, criatividade não vence investigação. A Operação Aleatorius, deflagrada no domingo (8), apura um esquema de fraude em títulos de capitalização envolvendo sete pessoas entre sócios e gestores de uma empresa que, segundo a PF, mudava de nome com frequência — aparentemente acreditando que fiscalização funciona como memória curta.
A investigação apura crimes de lavagem de dinheiro, falsidade ideológica, falsificação de selo ou sinal público e delitos contra a ordem tributária. Tudo isso em um setor que, por lei, só pode operar com autorização do Ministério da Fazenda, hoje sob responsabilidade da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA).
Segundo o delegado Marco Antônio Nunes, a apuração começou após denúncia de fraude e rapidamente revelou que o selo usado pela empresa sequer havia sido analisado para fins de autorização. Um detalhe pequeno — apenas o requisito básico para funcionar legalmente.
A empresa até possuía autorização, mas para sorteios modestos, como uma motocicleta. O problema é que resolveu “evoluir” por conta própria, promovendo prêmios de alto valor, sem declarar cifras e, segundo a PF, lavando dinheiro no processo. Em um dos casos, o selo indicava um processo em Pernambuco que, na prática, ainda nem havia sido julgado — ou seja, autorização só na imaginação.
Os mandados foram cumpridos em Pernambuco (Garanhuns e Caruaru), Ceará (Juazeiro do Norte) e Piauí (Teresina). Em um apartamento na capital piauiense, os agentes encontraram R$ 600 mil em dinheiro, guardados de forma nada discreta: dentro de uma mala, em um armário. Um valor que, curiosamente, não constava em declarações oficiais.
A PF também identificou que os valores dos sorteios não eram integralmente pagos aos ganhadores, muitas vezes sendo repassados de forma parcial e parcelada — uma espécie de “prêmio criativo”, mas só para quem organizava o sorteio.
Outro ponto que chamou atenção dos investigadores foi a mudança constante de nome da empresa ao longo dos dois anos analisados. Segundo a PF, a estratégia servia para confundir a fiscalização e manter a mesma estrutura societária operando sob novas fachadas, sempre dentro daquela velha tentativa de parecer legal sem ser.
As investigações continuam com a análise do material apreendido, e novas fases da operação não estão descartadas. Já a empresa informou, em nota, que o sorteio previsto para o dia 8 não ocorreu por “motivo totalmente externo”. A Polícia Federal, ao que tudo indica, concorda — afinal, a lei costuma ser bem externa mesmo.