Dor de cotovelo na Sapucaí: Flávio ameaça acionar o TSE após desfile pró-Lula

Sem pedido de voto, Acadêmicos de Niterói vira alvo de chiadeira bolsonarista
Foto: Reprodução/Flickr
Lula X Flávio

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) resolveu transformar o Carnaval em caso de polícia eleitoral. Incomodado com o desfile da Acadêmicos de Niterói na Marquês de Sapucaí, anunciou que vai ao TSE denunciar “crimes do PT” por conta da homenagem ao presidente Lula. O problema? Não houve pedido de voto, não houve campanha, não houve santinho voando na avenida — só samba, alegoria e enredo.

Foto: Pablo Porciuncula /AFP
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva na Marquês de Sapucaí, onde são realizados os desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro

A escola levou para a avenida o tema “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, celebrando a trajetória política do presidente. Lula assistiu ao desfile do camarote da prefeitura do Rio e chegou a descer à pista para acompanhar a apresentação. Nada além disso. Nenhum discurso eleitoral, nenhum apelo explícito por reeleição.

Ainda assim, Flávio viu ali uma conspiração digna de roteiro carnavalesco. Em publicação nas redes sociais, prometeu acionar o Tribunal Superior Eleitoral contra o que chamou de uso de dinheiro público para propaganda antecipada. O partido Novo seguiu na mesma toada e falou até em inelegibilidade futura.

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O detalhe que atravessou a fantasia foi que o próprio TSE já havia rejeitado, dias antes, duas ações que acusavam Lula, o PT e a escola de propaganda antecipada. A relatora, ministra Estela Aranha, apontou que impedir manifestações artísticas com conteúdo político seria censura prévia. Os demais ministros acompanharam o voto.

Ou seja: juridicamente, o samba passou no teste. Politicamente, parece que o que ficou atravessado foi outra coisa.

O desfile também incluiu críticas ao ex-presidente Jair Bolsonaro, retratado de forma satírica — algo absolutamente comum na tradição carnavalesca, que há décadas ironiza figuras públicas. Para aliados bolsonaristas, foi ataque pessoal. Para quem assistiu à avenida, foi alegoria.

No fim das contas, a reação de Flávio soa menos como defesa da lei e mais como dor de cotovelo diante da narrativa que ganhou a Sapucaí: a reconstrução da trajetória vitoriosa de Lula contrastando com o desfecho amargo do governo de Jair Bolsonaro.

E vale reforçar: nem Lula pediu voto, nem a Acadêmicos de Niterói fez campanha. O que houve foi enredo, samba e crítica política — ingredientes que o Carnaval conhece muito antes de qualquer pré-candidato descobrir o TSE.

Se a avenida é palco de disputa, desta vez a bateria parece ter tocado mais alto que o apito da oposição.

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