E o eleitor que vendeu o voto? A parte esquecida do escândalo
Condenações expõem esquema, mas silêncio sobre quem recebeu dinheiro levanta questionamentos
A condenação da vereadora Tatiana Medeiros e de integrantes do seu círculo mais próximo expôs, com riqueza de detalhes, um esquema estruturado de compra de votos. Houve investigação, provas, PIX, listas, organização criminosa, divisão de tarefas tudo devidamente descrito e punido pela Justiça. Até aqui, o roteiro segue o esperado: o corruptor foi identificado, julgado e condenado.
Mas há uma peça nesse tabuleiro que insiste em passar despercebida.
E o eleitor que vendeu o voto?
A própria decisão judicial aponta pagamentos, transferências via PIX, comprovação de vantagens indevidas em troca do sufrágio. Ou seja, não há dúvida: houve quem comprasse mas também houve quem vendesse. E vender voto não é um ato inocente, tampouco um detalhe irrelevante no processo democrático. É crime. É corrupção ativa na base da pirâmide.
Ainda assim, enquanto os organizadores do esquema enfrentam penas duras, o outro lado dessa equação parece seguir ileso, como se fosse apenas figurante em um enredo onde, na prática, teve papel essencial.
A pergunta que fica é incômoda, mas necessária: por que a responsabilização não alcança também quem aceitou o dinheiro? Se há provas robustas de pagamento, se há identificação de beneficiários, por que não há, na mesma medida, o avanço sobre esses eleitores?
O silêncio institucional sobre esse ponto alimenta uma sensação perigosa: a de que vender voto pode ser um “negócio de baixo risco”. Pior ainda, contribui para normalizar uma prática que corrói a democracia por dentro, transformando cidadania em mercadoria e eleição em balcão de negócios.
Combater a compra de votos exige enfrentar todos os lados do problema. Punir apenas quem paga e ignorar quem recebe é tratar metade da doença e esperar cura completa. Não funciona.
Se a democracia é construída pelo voto, ela também é destruída quando esse voto tem preço. E enquanto essa conta não fechar para todos os envolvidos, a pergunta continuará ecoando cada vez mais alta: