"Rouba, mas faz": a frase que normaliza o inaceitável e enfraquece a democracia

Aceitar a corrupção como preço da gestão é desistir de cobrar ética e integridade na vida pública
Redação

Durante muito tempo, uma frase foi repetida quase como um slogan para justificar o injustificável: "Rouba, mas faz." Talvez poucas expressões tenham contribuído tanto para banalizar a corrupção e reduzir o nível de exigência da sociedade em relação aos seus representantes.

Foto: Revista40graus

É curioso perceber que ninguém contrataria um contador que desviasse dinheiro "mas entregasse o imposto em dia". Ninguém aceitaria um médico que "errasse algumas cirurgias, mas acertasse a maioria". Tampouco um empresário manteria um funcionário que furtasse parte do caixa "mas batesse as metas". No entanto, quando o assunto é política, ainda há quem trate a corrupção como um detalhe secundário.

A ironia está justamente aí: exige-se honestidade do caixa do supermercado, do porteiro, do motorista, do professor e do servidor público. Mas alguns parecem abrir uma exceção justamente para quem administra milhões ou bilhões de reais pertencentes à população.

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O argumento de que "todos roubam" também não resiste a uma análise séria. Generalizar a desonestidade serve apenas para diminuir a responsabilidade individual de quem realmente praticou ilícitos e para desestimular a busca por representantes mais íntegros. Nem todos roubam. Nem todos respondem por corrupção. E é justamente por isso que o eleitor deve pesquisar, comparar trajetórias, avaliar condutas e votar com responsabilidade.

É claro que uma investigação, por si só, não equivale a uma condenação, e toda pessoa tem direito ao devido processo legal e à presunção de inocência. Ainda assim, a ética na vida pública exige que o eleitor considere a conduta, o histórico e a transparência de quem pretende representá-lo.

O político não administra patrimônio próprio. Ele exerce um mandato em nome da sociedade. Seu comportamento acaba refletindo, em alguma medida, os valores que a própria sociedade decide prestigiar nas urnas.

A democracia não melhora quando o eleitor escolhe o "menos corrupto". Ela melhora quando o eleitor deixa de aceitar a corrupção como algo inevitável e passa a exigir competência acompanhada de honestidade.

Afinal, quem diz "rouba, mas faz" talvez esteja, sem perceber, fazendo uma confissão preocupante: já desistiu de acreditar que seja possível fazer sem roubar. E essa talvez seja uma das maiores derrotas que uma sociedade pode impor a si mesma.

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