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Dom João VI: 200 anos depois, o rei que ajudou a moldar o Brasil ainda intriga historiadores

Entre caricaturas e fatos históricos, pesquisas revisitam a vida e a misteriosa morte do monarca
Redação

Duzentos anos após sua morte, a trajetória de Dom João VI continua despertando debates entre historiadores e pesquisadores. Conhecido por transferir a corte portuguesa para o Brasil em 1808, o monarca teve papel decisivo na formação das bases administrativas e políticas que mais tarde permitiriam o surgimento do Estado brasileiro.

Foto: Museu Nacional de Belas ArtesRetrato de dom João 6º, por Jean-Baptiste Debret (1817)
Retrato de dom João 6º, por Jean-Baptiste Debret (1817)

Durante muito tempo, a figura do rei foi retratada de forma caricata: um governante medroso, glutão e constantemente ridicularizado na história popular. Pesquisadores contemporâneos, porém, afirmam que essa imagem simplificada não corresponde totalmente à complexidade de sua atuação política.

Um rei entre Portugal e Brasil

Nascido em 1767, Dom João VI governou Portugal em um período de grandes turbulências internacionais. No início do século XIX, a expansão militar de Napoleão Bonaparte pela Europa colocou o reino português sob ameaça direta.

Foto: Biblioteca NacionalGravura que representa o desembarque da família real portuguesa no Brasil, do acervo da Biblioteca Nacional
Gravura que representa o desembarque da família real portuguesa no Brasil, do acervo da Biblioteca Nacional

Para evitar a captura da família real e preservar o império colonial, o príncipe regente decidiu transferir a sede da monarquia para Rio de Janeiro em 1808. A mudança da corte para a América foi um episódio inédito na história das monarquias europeias: pela primeira vez um império passou a ser governado a partir de uma colônia.

A decisão acabou transformando profundamente o território brasileiro. Durante sua permanência no país, Dom João promoveu reformas administrativas e econômicas importantes.

Entre as medidas mais marcantes estiveram a abertura dos portos brasileiros ao comércio internacional, o fim de diversas restrições do antigo pacto colonial e a criação de instituições que ajudariam a estruturar o futuro Estado nacional.

Nesse período surgiram órgãos fundamentais como a Biblioteca Nacional do Brasil, o Banco do Brasil, o Museu Nacional e a imprensa oficial. Escolas de ensino superior também começaram a funcionar, ampliando a formação intelectual na colônia.

Foto: ReproduçãoFilho de dom João 6º, dom Pedro 1º foi nomeado príncipe regente do Brasil quando o pai retornou a Portugal na tentativa de conter a revolução liberal do Porto
Filho de dom João 6º, dom Pedro 1º foi nomeado príncipe regente do Brasil quando o pai retornou a Portugal na tentativa de conter a revolução liberal do Porto

Para muitos historiadores, essas medidas ajudaram a preparar o caminho para a independência do Brasil, proclamada em 1822 por seu filho, Dom Pedro I.

A vida cercada de intrigas

Apesar da importância histórica, o reinado de Dom João também foi marcado por intensas disputas políticas. Entre as figuras mais controversas desse período está sua esposa, Carlota Joaquina, conhecida por suas ambições políticas e por tentar interferir diversas vezes nos rumos do governo.

O ambiente político em Portugal e no império luso-brasileiro era marcado por disputas entre absolutistas e liberais, dois grupos com visões distintas sobre o poder monárquico.

De acordo com o pesquisador Paulo Rezzutti, autor de estudos sobre a monarquia luso-brasileira, Dom João buscava frequentemente uma política de conciliação entre esses grupos, tentando manter equilíbrio em meio às tensões que atravessavam o reino.

Essa postura moderada, porém, também acabou gerando insatisfações entre setores mais radicais da política.

A misteriosa morte do monarca

Dom João VI morreu em 10 de março de 1826, aos 59 anos, em Lisboa. Os registros médicos da época relatam que o rei apresentou convulsões, problemas gastrointestinais e repetidos episódios descritos como “insultos nervosos” nos dias que antecederam sua morte.

No entanto, uma hipótese intrigante passou a circular ainda naquele período: a possibilidade de que o monarca tivesse sido envenenado.

Pesquisas realizadas no século XX analisaram amostras preservadas das vísceras do rei, retiradas durante o processo de embalsamamento. Os exames indicaram níveis elevados de arsênico, substância frequentemente associada a casos históricos de envenenamento.

Embora a descoberta tenha reforçado suspeitas antigas, especialistas afirmam que não é possível determinar com absoluta certeza a causa da morte.

Alguns estudiosos lembram que Dom João apresentava diversos problemas de saúde, incluindo sintomas compatíveis com doenças cardíacas e metabólicas, que também poderiam explicar o desfecho fatal.

Entre mito e realidade

Duzentos anos depois, a figura de Dom João VI continua cercada de interpretações contraditórias.

Para alguns historiadores, ele foi um governante prudente que conseguiu preservar o império português em um momento crítico da história europeia. Para outros, representou um modelo político conservador que manteve privilégios das elites e limitou avanços democráticos.

Independentemente das interpretações, há consenso em um ponto: sua decisão de transferir a corte para o Brasil mudou profundamente o destino da antiga colônia.

Foi ali, em solo americano, que se estruturaram instituições e decisões políticas que ajudariam a transformar o território em uma nação independente poucos anos depois.

Assim, entre críticas, elogios e mistérios históricos, a história de Dom João VI permanece como um capítulo fundamental para compreender a formação política e cultural do Brasil. 

Foto: Coleção do Palácio Nacional de QueluzDona Carlota Joaquina, mulher de dom João 6º; pintura de Nicolas-Antoine Taunay realizada por volta de 1817
Dona Carlota Joaquina, mulher de dom João 6º; pintura de Nicolas-Antoine Taunay realizada por volta de 1817

Fonte: Revista40graus, Edison Veiga e colaboradores

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