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A fulminante ascensão de Daniel Vorcaro — e a queda que arrastou o Banco Master, o BRB e a paciência do Banco Central

Do estrelato financeiro à Operação Compliance Zero, passando pelo veto do BC, pela liquidação do Master
Redação


Do estrelato financeiro à Operação Compliance Zero, passando pelo veto do BC, pela liquidação do Master e pelo afastamento do presidente do BRB: a trajetória que mistura ousadia, risco e ironias do mercado

A trajetória de Daniel Vorcaro sempre foi marcada por velocidade. O mineiro que se tornou banqueiro em tempo recorde elevou o patrimônio do Banco Master de R$ 219 milhões para R$ 5 bilhões em cinco anos. Uma carreira fulminante — o tipo que faz qualquer consultor de finanças levantar a sobrancelha. Mas, como toda história que sobe rápido demais, a descida acabou sendo ainda mais acelerada.

Foto: ReproduçãoDaniel Vorcaro, o criador do Banco Master
Daniel Vorcaro, o criador do Banco Master

Filho de um casal que começou cedo — o pai tinha 20 anos, a mãe 16 — Vorcaro cresceu em meio a mudanças bruscas. O pai, Henrique, largou a juventude boêmia graças à intervenção firme do avô Serafim Vorcaro, que havia deixado o catolicismo, convertido-se ao protestantismo e se tornado pastor. Dessa virada nasceu um vínculo profundo com a Igreja Batista da Lagoinha, relação que viria a aparecer nos negócios, nos favores e até nos milagres — esses últimos devidamente anunciados em púlpitos e, às vezes, viabilizados por BMWs quitadas às pressas.

Antes de virar banqueiro, Daniel ganhou até programa de TV na emissora adquirida com as generosas doações do pai à igreja. Depois, aventurou-se como gestor educacional, experiência que ele define como sucesso absoluto e que ex-funcionários descrevem como naufrágio administrativo.

Ao longo dos anos, Daniel e o pai se envolveram em negócios imobiliários e em uma tentativa grandiosa — e fracassada — de transformar um prédio abandonado em Belo Horizonte no luxuoso Hotel Golden Tulip para a Copa de 2014. Centenas de milhões investidos, obras paradas e o fim do sonho envidraçado.

A vida mudou de vez quando Vorcaro encontrou, em 2016, o quase falido Banco Máxima, de Saul Sabbá. Com autorização do Banco Central — que levou dois longos anos para sair — Daniel assumiu o controle, chamou os irmãos Conte para a sociedade, reestruturou a instituição e rebatizou-a de Banco Master. A partir daí, abraçou uma estratégia que analistas descrevem como “excessivamente ousada” — e que Beyoncés do mercado descreveriam como “coragem demais para quem não tem rede de proteção”.

O Master passou a operar no limite máximo do risco permitido, alavancado dez vezes o capital, e oferecendo CDBs com remuneração de até 130% do CDI — uma taxa que faria qualquer investidor desconfiar, mas que atraiu bilhões. Com esse dinheiro, o banco comprava participações em empresas altamente endividadas e em recuperação judicial. A aposta era simples: se todas essas empresas se recuperassem brilhantemente, o lucro seria espetacular. Se não… bem, aí seria exatamente o que o Banco Central chama de “problema sistêmico”.

Em dezembro do ano passado, o então presidente do BC, Roberto Campos Neto, adotou um tom direto: ou o Master mudava radicalmente suas práticas e aportava R$ 2 bilhões em capital, ou seria liquidado. Era um ultimato com prazo: março de 2024.

No apagar das luzes do limite imposto pelo BC, surgiu o anúncio-surpresa: o Banco de Brasília (BRB) — uma instituição estatal de médio porte — decidiu comprar o Master, oferecendo exatamente os R$ 2 bilhões exigidos. Um passe de mágica financeiro que surpreendeu o mercado, chamou a atenção da imprensa e acendeu todos os alertas técnicos.

Meses depois, após a análise criteriosa, o Banco Central vetou o negócio. A novela ganhou novo capítulo: o presidente do BRB foi afastado, decisão que, segundo o próprio banco, foi tomada para “garantir a integridade das investigações”. Cada instituição tem sua forma de dizer “acho melhor você sair da sala enquanto resolvemos esse incêndio”.

Em setembro, com o veto do BC, o Master perdeu sua última chance. Pouco depois, veio a liquidação.

E então a derrocada atingiu o ápice. Vorcaro foi preso no Aeroporto de Guarulhos, quando se preparava para deixar o país em um jatinho particular, no âmbito da Operação Compliance Zero — investigação que apura a emissão de títulos de crédito falsos por instituições financeiras.

Foi um desfecho abrupto para a história de um banqueiro que dizia enfrentar preconceitos e vencer pela obstinação — e para uma instituição que sempre quis ser maior e mais ousada do que todos os limites regulatórios pareciam indicar.

A “grande virada” que Daniel tanto celebrava terminou com o Banco Master liquidado, o negócio com o BRB desfeito, o presidente do BRB afastado e a PF acompanhando a última etapa dessa trajetória.

Fonte: Revista40graus, colaboradores e um pouco do material de Consuelo Dieguez

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