Paulista em clima de festa, protesto e ironia histórica após prisão de Bolsonaro
De um lado, samba e alívio; do outro, reclamação tímida e bonecão inflável com saudade de roteiro conspiratórioA avenida Paulista viveu neste domingo (23) uma paisagem política que parecia até roteiro de comédia involuntária: de um lado, a esquerda comemorando a prisão de Jair Bolsonaro com roda de samba; do outro, a direita tentando explicar que seu protesto contra Lula “já estava marcado”, mas que por coincidência absoluta aconteceu no mesmo dia em que seu líder foi preso. É o tipo de coincidência que até algoritmo de IA desconfia.
O ato pró-Lula e pró-instituições começou discreto — culpa inclusive da avenida que, excepcionalmente, ficou aberta para carros por causa da Fuvest. Mesmo assim, começou a crescer quando pedestres foram atraídos não só pela política, mas pela boa e velha roda de samba, que tem mais poder de mobilização que muito coach de direita. No centro da celebração, um inflável gigante de Bolsonaro caracterizado como presidiário — nada como o realismo artístico para marcar o momento.
Do outro lado da Paulista, o grupo de direita também colocou seu bonecão inflável, desta vez de Lula com roupas listradas, porque se não dá para rebater fatos, pelo menos dá para empatar na criatividade cenográfica. Os organizadores insistiam que o protesto “não tinha relação com a prisão”, o que provavelmente foi dito com a mesma convicção de quem jura que aquela ligação às 3h da manhã era só para “conversar”.
Mais adiante, diante da Fiesp, bolsonaristas pediam anistia para Bolsonaro e para os envolvidos nos atos golpistas do 8 de Janeiro — um pedido que parece ignorar totalmente que anistia não costuma ser concedida a quem tenta derrubar a própria democracia. Mas, claro, detalhes técnicos nunca foram o forte dessa ala.
Do lado da esquerda, Bianca Borges, presidenta da UNE, lembrou que a prisão de Bolsonaro representa o desfecho natural da tentativa frustrada de golpe. Já no lado bolsonarista, Catharina Donato, pré-candidata pelo Novo, afirmou discordar da prisão por “parcialidade” e ainda citou escândalos antigos envolvendo Lula — o famoso combo argumentativo: “não falo do crime do meu, mas lembro do do seu.”
Enquanto isso, a realidade seguia firme: Bolsonaro foi preso preventivamente após violar a tornozeleira eletrônica com um ferro quente, admitido por ele mesmo, como se estivesse explicando uma traquinagem adolescente. Segundo Alexandre de Moraes, havia risco de fuga para a embaixada dos Estados Unidos — um destino tão frequente no bolsonarismo que já dá até para pedir cartão fidelidade.
O ministro levou em conta também o histórico recente: as fugas de Carla Zambelli, Alexandre Ramagem e Eduardo Bolsonaro, todos brilhando intensamente no noticiário policial. Mas, claro, para os advogados do ex-presidente, tudo se tratava apenas de uma “vigília de orações”. Aparentemente, uma vigília tão espiritual que precisou de tornozeleira derretida para funcionar.
No fim, a Paulista refletiu bem o clima do Brasil atual: uma parte celebra o restabelecimento da ordem constitucional com música e humor, enquanto a outra tenta justificar o injustificável com frases prontas e infláveis uniformizados. E assim seguimos: entre o samba e a desculpa esfarrapada, a democracia continua dançando — felizmente, com passos cada vez mais firmes.
Fonte: Revista40graus, colaboradores, redes sociais e outros meios de cominicação
