Gestão descobre regra que ela mesma criou e deixa mães e crianças a pé em Teresina
Semec e prefeitura invocam norma antiga, mas ignoram impacto social e sacrificam famílias mais vulneráveisA Prefeitura de Teresina e a Secretaria Municipal de Educação (Semec), sob a condução de Ismael Silva, decidiram aplicar com rigor cirúrgico um conjunto de normativos criados pela própria gestão municipal — e que, curiosamente, só agora viraram prioridade. O resultado foi a suspensão do transporte escolar para estudantes que moram a até 2,5 km da escola, medida que, na prática, empurrou dezenas de mães e crianças para longas caminhadas diárias sob sol, chuva e insegurança.
Em nota enviada a outro meio de comunicação, a Semec explicou que apenas está “cumprindo a legislação vigente desde 2014”, como se essas regras tivessem caído do céu e não pudessem ser revistas, atualizadas ou adaptadas pela mesma gestão que agora as usa como escudo técnico. Afinal, o normativo é municipal, mas parece ter virado cláusula pétrea quando o assunto é ouvir mães, crianças e estudantes com deficiência.
A decisão pegou famílias de surpresa, especialmente as de baixa renda e responsáveis por crianças com deficiência, que agora precisam se virar para garantir o básico: chegar à escola. Na Escola Municipal Jornalista Deoclécio Dantas, na zona Leste, alunos de comunidades como Vale do Gavião, Santa Bárbara e Árvores Verdes sentem na pele o peso da “readequação técnica”.
Mães viram transporte oficial
Uma das afetadas é Andressa Carvalho, mãe de três crianças, entre elas gêmeos de 9 anos e um bebê de 10 meses com problemas respiratórios. Sem o ônibus escolar, Andressa caminha cerca de 7,2 km por dia para levar e buscar os filhos. Tudo isso com um problema no braço direito, laudo médico, sessões de fisioterapia e afastamento do trabalho.
“Estou expondo minha filha pequena a riscos, caminhando debaixo de sol e chuva. Isso é um descaso com nossas crianças”, relata. Mas, ao que tudo indica, o sofrimento diário não entrou na planilha técnica da Semec.
Crianças com deficiência fora da sala de aula
A regra inflexível também atingiu alunos com deficiência. Assunção Moraes é mãe de Eliseu Victor, de 15 anos, diagnosticado com TEA grau 3. Para levá-lo à escola, ela precisaria caminhar cerca de 10 km por dia, ida e volta repetidas quatro vezes. Resultado: desde o início das aulas, Eliseu está fora da escola.
“Ele não aguenta fazer essa caminhada. É muito triste”, diz a mãe, que também tem outra filha em avaliação para autismo, igualmente afastada das aulas. O direito à educação, nesse caso, ficou condicionado à resistência física das mães.
Comunidade cobra, gestão se esconde atrás da norma
Sem respostas da Semec, pais recorreram ao Ministério Público. A expectativa é que, após audiência, a secretaria finalmente apresente uma solução — de preferência uma que considere pessoas reais, e não apenas distâncias medidas no papel.
Moradores relatam que antes três ônibus atendiam a região; agora, apenas um. “Como cobrar rendimento escolar se as crianças não conseguem chegar à escola?”, questiona Antônio Marques da Silva, pai de aluno e morador da comunidade.
Enquanto isso, a prefeitura insiste no discurso da legalidade, da economia e da isonomia, esquecendo um detalhe básico: as regras foram criadas pela própria gestão e podem ser alteradas por ela. Falta apenas vontade política — e um pouco de sensibilidade — para enxergar que, nessa história, quem está pagando a conta são mães exaustas e crianças privadas do direito de estudar.
A coluna mantém de forma objetiva o espaço aberto e contínua para a prefeitura de Teresina e a SEMEC e a população em geral via (86)99828-0000.
