Quando a ficha cai — ou melhor, quando a tornozeleira cai
Bolsonaro foi preso antes do previsto, num silêncio quase poéticoBolsonaro foi preso antes do previsto, num silêncio quase poético. Preventivamente, sem alarde, sem algemas, mas com todo o peso jurídico reservado a quem é flagrado ensaiando uma debandada dias antes de começar a cumprir sua pena por tentar subverter o voto da maioria dos brasileiros em 2022. Nada como fazer história — da pior forma possível, diriam os mais irônicos.
A tentativa de fuga, segundo as investigações, seria embalada pelo caos conveniente da vigília convocada por Flávio Bolsonaro. Jair estava a 15 minutos de qualquer embaixada em Brasília — o tipo de proximidade que desperta imaginações férteis. Se tivesse que apostar, muita gente cravaria que ele escolheria uma das monarquias absolutistas árabes. Não por afinidade ideológica — longe disso — mas porque, em 2021, no auge de sua diplomacia criativa, Bolsonaro chegou a comentar sobre “troca de presos políticos” nos Emirados Árabes. Presos políticos? Vindo dele? Só se estivesse preocupado consigo mesmo — opinião corrente entre seus próprios críticos.
Na mesma temporada turística, inaugurou a embaixada brasileira no Bahrein — ou algo assim. Porque, na prática, jamais indicou um embaixador para lá. Diplomatas interpretaram o vazio como manobra para manter discretas as relações do Planalto com a monarquia. Uma espécie de “embaixada self-service”.
E aí, como num roteiro que escreve a si mesmo, Eduardo Bolsonaro surge visitando o Bahrein na semana passada, postando selfies diplomáticas com o xeique Khaled bin Hamad Al-Khalifa. Coincidências que até um roteirista de novela descartaria por serem óbvias demais.
Agora imagine o desastre que seria uma fuga efetiva de Bolsonaro. O país, que virou referência de que a democracia pode, sim, responsabilizar poderosos, ficaria internacionalmente desmoralizado. A população pobre, que sofreu as consequências mais duras de seus atos e omissões, veria a polícia incapaz de manter preso quem tentou fraudar a vontade popular. Novos aventureiros políticos se animariam. E, para completar, os EUA encontrariam um Brasil humilhado nas próximas negociações — um prato cheio para quem já nos vendeu tarifa como se fosse bênção.
Com Trump reduzindo tarifas e Bolsonaro sendo preso assistindo ao próprio castelo de areia desabar, o ex-presidente agora torce para que ao menos o ex-aliado aceite bancar o herdeiro turista que vive orbitando a Disney.
E mesmo assim, Bolsonaro pode sair desta vida sem uma condenação pelo que seus críticos consideram seu ato mais grave: o abandono criminoso — essa é a palavra usada por analistas e juristas — de brasileiros durante a pandemia. Em 2021, o país respondia por mais de um terço das mortes por Covid no mundo, apesar de ter menos de 3% da população mundial. Sem as vacinas disponibilizadas por Doria — esse vilão improvável da narrativa bolsonarista — o desastre teria sido ainda maior.
Portanto, quando você vir Bolsonaro chegar à cadeia, lembre-se — com toda a ironia permitida pela lei e pela história ainda fresca: ali não entra apenas um ex-presidente. Ali entra, na avaliação de seus críticos, o personagem mais desastroso que já passou pelos corredores da República.
